Cintia Barreto
Cintia Barreto
O professor estuda | para aprender | que não deveria saber tanto.

A Língua é Minha Pátria

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Publicado originalmente em
http://www.debatesculturais.com.br/?p=5877

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria.
(Caetano Veloso“Língua”)

Quando Caetano Veloso compôs esta canção, em 1984, vivia-se o agonizar da ditadura. Não é difícil supor que a noção de pátria, daquela época, fosse bem diferente da que podemos dispor hoje. Mais do que ser o país em que uma pessoa nasce, a pátria é o espaço de interações de dimensões afetivas, sociais, históricas e culturais. “Minha pátria é minha língua” disse Pessoa e cada língua carrega consigo as marcas de sua formação.

Ao nos vermos inseridos num contexto de globalização, precisamos refletir sobre seus efeitos. Guimarães Rosa, escritor modernista brasileiro, sempre reforçou a ideia da universalidade por meio do regionalismo: “O sertão é do tamanho do mundo.” Nesse sentido, compreendemos que o “global” não implica a negação do “local”. Ao contrário disso, percebemos cada vez mais um movimento de valorização da “diferença”. Atualmente, os conceitos de “diversidade” e “multiculturalismo” são considerados como forma de respeitar a cultura do outro. Para tanto, é preciso valorizar a nossa própria cultura, nossa língua antes de valorizar qualquer outra, sobretudo, porque nosso país sofreu um processo de colonização.

É necessário ressaltar que a língua não serve apenas como meio de comunicação. Mais do que isso, representa a história de um determinado povo, seus costumes, seus valores. A fim de minimizar os efeitos nocivos do etnocentrismo (forma de um determinado grupo étnico se entender superior a outros), foi sancionada a lei 11.645/08. Essa surge numa tentativa de perceber a diversidade como ponto central das sociedades pós-modernas. Privilegiar apenas as culturas europeias e estadunidenses é, de certa forma, desvalorizar as demais. É manter a dominação de determinados grupos há muito existente em África e na América Latina.

Nesse sentido, a Lei 11.645/08, que torna obrigatório o estudo da História e da cultura afro-brasileiras e indígenas nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e privados, passa a existir como meio de, dentro do âmbito escolar, levar os alunos a perceberem as contribuições desses grupos étnicos na formação do Brasil. Segundo Leonardo Boff (BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Petrópolis: RJ: Editora Vozes, 1997, p. 23), “é só pela libertação que os oprimidos resgatam sua auto-estima. Refazem a identidade negada. Reconquistam a pátria dominada. E podem construir uma história autônoma, associada à história de outros povos livres.”

É certo que o Brasil vem, não é de hoje, na busca por uma “identidade nacional”. Essa identidade já foi idealizada pelo Romantismo nos versos de Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras/onde canta o sabiá/As aves que aqui gorjeiam/Não gorjeiam como lá.” e foi reformulada pelo Modernismo no Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade: “Tupi, or not tupi, that is the question”. De lá pra cá, ouvimos o proliferar de vozes que lutam por libertar o Brasil e fazer levar ao mundo globalizado sua cultura. Na busca por referenciais, precisamos valorizar a língua mãe, a “mátria”, nossa língua que, antes de ser portuguesa, já se faz brasileira de tantos dialetos, gestos e cores. Nesse sentido, temos um jeito brasileiro de falar a língua portuguesa.

Por fim, precisamos apreciar nossa língua, fazer valer nossos falares. Não é caso de ortodoxia ou fundamentalismos (estamos longe disso ainda), mas de auto-estima mesmo. Valorizar nossa língua é valorizar o negro, o indígena, o povo. É valorizar a pátria, é querer “frátria”.

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