[an error occurred while processing this directive]
[an error occurred while processing this directive]
O professor estuda | para aprender | que não deveria saber tanto.

A Importância do Ato de Escrever no Ensino de Língua Portuguesa (página 02)

Versão para Impressão (Formato PDF)Envie a Um Amigo

A Importância Da Leitura Para Aquele Que Escreve

Não é de hoje que encontramos pessoas com dificuldade de passar para o papel as suas idéias a respeito de algo, porque não têm informação suficiente sobre aquele assunto específico. Por outro lado, também é raro encontrar essas mesmas pessoas lendo uma obra poética, de ficção, um jornal, uma revista, etc. O que todos têm que entender é que a leitura é a base para a boa escrita e não só se deve ler para escrever algo, mas se deve ler para enriquecer-se culturalmente. Deve-se ler pelo prazer de dialogar com outros que já leram outros que leram outros, pois não há nenhum mal no plágio criativo.

Um escritor precisa ler para observar e absorver o que foi lido. Um escritor precisa ler para se enriquecer culturalmente. Não há um bom escritor que não seja um leitor voraz com fome de informação, com fome de formação. Um escritor precisa ler bons textos para escrever bons textos. Um bom escritor é sempre um bom leitor.

Nesse sentido, sem a prática da leitura, a dissertação, por exemplo, pode não apresentar argumentos palpáveis, não alimentando de maneira persuasiva o receptor do texto elaborado. A leitura, por sua vez, tem a função também de organizar as informações adquiridas ao longo dos anos. À medida que se lê, um mundo de magia e conhecimento, de informações e ritmos, de certezas e possibilidades se revela àquele que tem, nas mãos e nos olhos, a chave do tesouro a ser descoberto. A leitura é necessária e, assim como a arte, tem inúmeras atribuições.

Por outro lado, antes de se buscar a leitura, faz-se mister escolher bem o texto a ser lido, pois para que "o leitor se informe é necessário que haja entendimento daquilo que ele lê" (FAULSTICH, 2002, p. 13) . Assim, a inteligibilidade textual é imprescindível ao leitor; caso contrário, ele não conseguirá absorver as informações necessárias à elaboração do seu próprio texto.

Dito isso, o próximo passo a ser tomado é fazer uma leitura crítica, isto é, "reconhecer a pertinência dos conteúdos apresentados, tendo como base o ponto de vista do autor e a relação entre este e as sentenças-tópico" (FAULSTICH, 2002, p.19) Ler criticamente é, sobretudo, ler cuidadosamente separando o joio do trigo ou retirando as ervas daninhas do florido mundo das letras.

Escrever não é essencial apenas a intelectuais, escritores, jornalistas, advogados ou professores de português. A escrita como meio de comunicação é para todos e é questão bem definida e planejada em vários concursos públicos e vestibulares de maneira geral. Na UNICAMP, a prova de redação vem ganhando novos objetivos. Nesse momento, o candidato terá que ser capaz de resolver uma situação-problema. A partir da leitura de textos - coletânea - , o estudante deve escolher entre uma dissertação, de natureza argumentativa; uma narração; e um texto persuasivo. Nesse sentido, leitura e escrita andam juntas, como podemos perceber em:

Escrever é uma prática social que consiste, em boa medida, em escrever contra, sobre, a favor, ou, mais simplesmente, a partir de outros textos. Não há escrita sem polêmica, retomada, citação, alusão etc. Ninguém escreve a partir do nada, ou a partir de si mesmo. (UNICAMP, 2001)
É notória a relevância da leitura nesses processos de seleção, por exemplo, uma vez que se proporciona , a partir da coletânea, ao estudante, a possibilidade de pensar com clareza sobre o tema apresentado.

Não se pode esquecer de que, se é cobrado ao universitário tamanha reflexão para entrar em uma universidade, não é correto que, ao longo do curso universitário, não seja ele capaz de refletir e escrever de forma crítica sobre vários pontos fornecidos, em diferentes matérias. Na verdade, escreve mal aquele que não tem o que dizer porque não aprendeu a organizar seu pensamento. Àquele que não tem o que dizer, de nada adianta o domínio das regras gramaticais, muito menos saber selecionar as palavras para cada ocasião. Faltará a esse sempre o conteúdo, o recheio.

Dessa forma, antes de escrever é preciso refletir, e o melhor estímulo para a reflexão é a leitura, é ler o que outros já escreveram a respeito do que leram de outros e assim sucessivamente, pois a escrita está sempre impregnada de outras escritas, ou seja, a leitura é diálogo direto ou indireto com outras leituras. A leitura é um diálogo velado com o outro.

Para Harold Bloom, o sujeito que pretende desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a avaliações pessoais necessita ler por iniciativa própria. Não ler apenas por conveniência. Não ler apenas livros técnicos, pertinentes ao seu campo de atuação, ou ler por indicação de outrem, mas, acima de tudo, ler por prazer, por desejo próprio de se divertir ou de conhecer algo.

A informação, nos dias de hoje, é facilmente encontrada, pois aumentaram sensivelmente os canais de comunicação. Além do jornal, da revista, do livro, da televisão, do telefone, do rádio, do fax, do telegrama, temos agora o e-mail, a Web (com seus pontos positivos e negativos, proporciona um fluxo ininterrupto de informações disponíveis em qualquer ponto do mundo) a videoconferência e a telefonia celular entre outros. Em contrapartida, discernir o que deve ser absorvido e o que deve ser deletado ficou mais complicado depois da internet. Cabe ao leitor transformar informação em conhecimento, lendo de forma crítica e cuidadosa, pois como diz Harold Bloom:

Uma das funções da leitura é nos preparar para uma transformação, e a transformação final tem caráter universal. Considero aqui a leitura como hábito pessoal, e não como prática educativa. A maneira como lemos hoje, quando o fazemos sozinhos, manifesta uma relação contínua com o passado, a despeito da leitura atualmente praticada nas academias. Meu leitor ideal (e herói preferido) é Samuel Johnson, que bem conhecia e tão bem expressou as vantagens e desvantagens da leitura constante. Conforme qualquer outra atividade mental, a leitura, para Johnson, devia atender a uma preocupação central, ou seja, algo que "nos diz respeito, e que nos é útil". Sr. Francis Bacon, gestor de algumas da idéias postas em prática por Johnson, ofereceu o célebre conselho: "Não leia com o intuito de contradizer ou refutar, nem para acreditar ou concordar, tampouco para ter o que conversar, mas para refletir e avaliar". A Bacon e Johnson eu acrescentaria um terceiro sábio da leitura, inimigo ferrenho da História e de todos os Historicismos, Emerson, que afirmou: "Os melhores livros levam-nos à convicção de que a natureza que escreveu é a mesma que lê". Proponho uma fusão de Bacon, Johnson e Emerson, uma fórmula de leitura: encontrar algo que nos diga respeito, que possa ser utilizado como base para avaliar, refletir, que pareça ser fruto de uma natureza semelhante à nossa, e que seja livre da tirania do tempo. (2001, p. 17-8)
A leitura deve ser útil, deve aproximar aquele que lê daquele que escreve e deve propiciar, antes de qualquer coisa, a reflexão.

No ensino de língua portuguesa, ao se tratar de produção de texto devemos automaticamente pensar em leitura, mas também em tipos de texto. Na universidade, o educando será, geralmente, chamado a escrever um texto dissertativo, argumentando sobre um assunto. Por isso, é importante refletir rapidamente sobre essas nomenclaturas: dissertação e argumentação.

Deve-se lembrar que a dissertação é a composição mais utilizada no meio acadêmico. Por isso, tomar-se-á como modelo de escrita, nesse trabalho, a dissertação que pode apresentar argumentos para comprovação da tese defendida.

Para Magda Soares e Edson Nascimento, a dissertação também foi escolhida como composição mais utilizada tanto no meio acadêmico quanto no campo profissional, como se pode perceber no prefácio do livro Técnica de Redação:
A DISSERTAÇÃO é a forma de REDAÇÃO mais usual. Com mais freqüência é a forma de REDAÇÃO solicitada às pessoas envolvidas com a produção de trabalhos escolares, com a administração e execução técnico-burocráticas de serviços ligados à Indústria, Comércio, etc. A prosa dissertativa é, assim, predominante nos textos de trabalhos escolares , nos textos de produção e divulgação científicas (monografias, ensaios, artigos e relatórios técnico-científicos) e nos textos técnico administrativos. Raramente é uma pessoa solicitada a produzir uma descrição ou uma narração; freqüentemente, ao contrário, é solicitada a produzir uma dissertação. (Soares, 1979, prefácio)
Nesse sentido, é importante ressaltar a diferença entre dissertação e argumentação, uma vez que essas nomenclaturas costumam ser tomadas, muitas vezes, como sinônimas. Na dissertação, as idéias do emissor são expostas, mostra-se o que se sabe ou o que se julga saber sobre aquele determinado assunto. Já na argumentação, além de se expor o que se pensa sobre um determinado assunto, faz -se isso de forma persuasiva, tentando convencer o receptor, isto é, o leitor do seu texto.

Assim, "argumentar é, em última análise, convencer ou tentar convencer mediante apresentação de razões, em face da evidência das provas e à luz de um raciocínio coerente e consistente". (GARCIA, 1992, p.370)

Para expor as idéias ou para convencer alguém, é preciso conhecer o assunto tratado, uma vez que, ninguém consegue escrever bem, se não conhece o que vai escrever. É preciso, antes de qualquer movimento, conhecer profundamente o objeto de reflexão. Para escrever, assim, a respeito de qualquer assunto, é necessário, antes, ler e refletir, procurando argumentos que serão apresentados como elementos de sustentação temático-textual.

Para Mattoso Câmara, "qualquer um de nós senhor de um assunto é, em princípio, capaz de escrever sobre ele. Não há um jeito especial para a redação, ao contrário do que muita gente pensa. Há apenas uma falta de preparação inicial, que o esforço e a prática vencem". (Mattoso, 2001, p.61)

Essa falta de preparação inicial que Mattoso cita, decorre da ausência, muitas vezes, de conhecimento da estrutura do texto a ser elaborado, de elementos substanciais à inteligibilidade textual e da carência de leitura. Na verdade, a prática da leitura é parte fundamental no processo de elaboração de um texto. Mattoso Câmara também se referiu a esse aspecto textual:
A arte de escrever precisa assentar, analogamente, numa atividade preliminar já radicada, que parte do ensino escolar e de um hábito de leitura inteligentemente conduzido; depende muito, portanto, de nós mesmos, de uma disciplina mental adquirida pela autocrítica e pela observação cuidadosa do que outros com bom resultado escreveram. (2001, p.61)
Portanto, há de se reforçar o que Othon Moacyr Garcia disse: "aprender a escrever é aprender a pensar". Pode-se completar essa afirmativa com a idéia de que para se pensar, ou melhor, refletir a respeito de algo, é preciso conhecer a temática a ser abordada e, para se ter conhecimento, nada melhor que ler o que outros já disseram sobre o assunto.

Os Principais Problemas De Redação

Mattoso Camara dividiu os problemas de redação dois grupos: os essenciais e os secundários.

Os problemas essenciais estão ligados à composição, ou seja, ao plano da redação e à escolha vocabular, "técnica de uma formulação verbal que dispense os elementos extralingüísticos e elocucionais, só participantes da exposição oral". (2001, p.62)

Assim, a pontuação, a ortografia, a concordância, a acentuação, isto é , os elementos gramaticais constituem os problemas secundários que, para Mattoso, são mais fáceis de resolver.

Por outro lado, são os problemas secundários que brilham, muitas vezes, no palco-papel. Há professores que se preocupam em demasia com a ortografia das palavras, atribuindo aos problemas gramaticais a essência da redação, deixando em segundo plano a estrutura do texto.

De qualquer forma, são os elementos secundários, de Mattoso, que ganham destaque nas páginas de jornais e revistas e são esses mesmos problemas, principalmente, os ortográficos que ganham notoriedade em reportagens da televisão.

Vale ressaltar que a vida social é marcada pela comunicação escrita e oral. No campo profissional, a comunicação escrita é mais usada, pois através de relatórios, requerimentos, declarações, circulares, etc. as pessoas se comunicam dentro e fora de uma empresa. Nesse sentido, cabe a todos ter domínio dessa modalidade tão usada no dia-a-dia.

Como podemos notar, a língua escrita requer conhecimento de uma série de elementos que possibilitem ao homem expressar-se bem. Para escrever bem a pessoa precisa conhecer um grande número de regras e também de um conhecimento técnico da estrutura que será elaborada.
A pontuação não é no papel uma contraparte cabal da distribuição dos grupos de força da comunicação falada, e constitui a rigor um caráter próprio da exposição escrita. (Mattoso, 2001, p.57)
Os erros mais freqüentes

Os erros mais freqüentes são os gramaticais, isto é, erros de pontuação, acentuação, ortografia, concordâncias verbal e nominal, regências verbal e nominal, etc.

Pode-se encontrar uma tabela com os erros mais freqüentes em várias redações dissertativas no Manual de Redação e Estilo do Estadão. É evidente que não são apenas esses os erros de vários profissionais e universitários, contudo é importante mostrar quais são os principais erros gramaticais para que se tenha uma idéia geral dos problemas secundários de um texto escrito.

Como as pessoas aprenderam, durante muitos anos, as nomenclaturas gramaticais e pouco se interessaram na funcionalidade de orações subordinadas adverbiais, por exemplo, na frase, percebe-se por que há tantos erros nos textos de muitos universitários e pós-universitários. Eles não aprenderam a escrever. Eles escreveram pouco. E, de repente, se viram às voltas com uma série de textos e de trabalhos escritos. A saída, para muitos, infelizmente, são os ghost-writers ("escritores fantasmas") , pessoas pagas para elaborarem trabalhos que deveriam ser feitos pelos próprios universitários, de preferência, em sala de aula, com exceção da monografia - de final de curso - e de trabalhos mais longos (que não podem ser feitos em sala de aula, mas devem ser feitos pelo próprio estudante).

Uma boa saída para as aulas de língua portuguesa é fazer com que o educando escreva em todas as aulas a fim de que ele se familiarize com o ato de escrever e veja a dissertação como forma de manifestação de suas idéias. É importante que o universitário esteja sempre refletindo sobre os tópicos apresentados durante o curso na universidade. É certo que o educando encontra na universidade um espaço altamente interdisciplinar no qual filosofia e sociologia assim como física e cálculo, por exemplo, devem ser vistos como um todo constituídos por partes e não como partes isoladas de um todo.

Caso o universitário não crie o hábito de escrever em sala de aula, será praticamente impossível minimizar as dificuldades existentes na hora de escrever em casa. O universitário ou o pós-universitário deve enxergar na escrita o meio por que suas idéias serão organizadas e divulgadas a outras pessoas, valendo ou não nota. No caso de um profissional, vale lembrar que o que está em jogo não é mais um ano letivo, mas sim sua carreira que pode desmoronar , pelo simples fato de um engenheiro escrever um relatório cheio de erros de ortografia, concordância, regência , etc. A primeira impressão de quem lê um texto de um graduado cheio de erros é: "tem certeza de que ele cursou uma universidade???!!"

Dado o exposto, fica patente que os erros mais comuns são os erros 2ligados aos ensinos médio e fundamental (erros ligados ao aprendizado, falho, da gramática nesses períodos apresentados da vida escolar) e podem e devem ser sanados na universidade a partir de um exercício constante da escrita e da correção gramatical pelo professor e a posteriori pelo aluno.

Para finalizar esse capítulo, vale a pena refletir a respeito das afirmações de Adriana Armony no jornal O GLOBO de 15 de outubro deste ano:
Em sua vivência escolar, os alunos foram acostumados a decorar, a despejar conhecimentos mal digeridos no papel para simplesmente obter uma nota e passar. Freqüentemente eles não dominam o código escrito básico: escrevem frases incompletas, incoerentes ou sem qualquer tipo de coesão, cometem erros ortográficos grosseiros, não utilizam pontuação.
A partir dessas afirmativas, é imprescindível repensar o papel do ato de escrever na universidade, epicentro de saber, espaço de crítica e reflexão. Dessa forma, espaço também de debate, de leitura e de muita escrita a respeito de tudo que passa por ela.
Página Anterior

Próxima Página
[an error occurred while processing this directive]