Olhares aflitos. Corpos estalados. Haja estômago. A proximidade nos impede, ridiculariza, banaliza o genocídio. A enfermidade hoje habita nossos hábitos, marginaliza nossa sede de esperança que vai ficando amarelada com o tempo.
Ver de perto só de binóculos. Verde nem as matas estão mais. Estão aos poucos se vestindo de luto. Luto. Lutas. Luta. Lutamos todos nós.
Nas praias de Ipanema e Copacabana, até os tubarões são punidos. Temos cada vez mais sede de sangue e gosto de estanho. Nas veias abertas dessa América latina, quentes estão os corpos dentro dos ônibus, os das ruas estão frios, frívolos, fracionados e cometendo o tempo todo infrações. Furtadas estão essas crianças, têm sua infância trocada por trocados, mas o que mais impressiona é a expressão. Ao simples agrado, mostram-se os dentes cariadamente alegres, moleques. O espaço vazio ocupa e desculpa seus erros e privações.
Sempre quis ter um carro, agora, que tenho, quero um tanque... de roupas limpas e cheirosas.
Saudades de Isolda. Não a de Tristão, mas da nossa Isolda. Trabalhou mais dez anos lá em casa como passadeira. Passava as horas. Passou horas de minha adolescência corrida, escorrida, transeunte, a contar e a ouvir histórias entre o café e o lanche. Passeei, passeamos, agora, passamos, passados, a cara na tela do computador e com tamanha aflição afligimos todos os cidadãos. Não saia de casa! - diz o repórter gentil.Não, saia de casa! - diz a defesa-civil.
Sem saber aonde vamos, vamos seguindo em frente até quando Deus quiser, fugindo das estatísticas e pedindo a paz a Pelé.
(Rio de Janeiro , 23 de julho de 2003 - Texto premiado - 1º lugar no gênero crônica do Concurso "Guerra & Paz" do Tribunal de Justiça)