Cintia Barreto
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Análise do Poema "Nossos Inimigos", de Marçal Aquino

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Antes de mais nada, é interessante dizer que Marçal Aquino é um escritor contemporâneo, dono de uma linguagem cinematográfica e de um apurado senso de descrição do real. Não nos admira, então, ter tido ele várias obras literárias transformadas em roteiro para cinema. Muitas vezes, senão todas, por ele mesmo. O autor busca desvelar a essência. A essência humana, ou melhor, a essência marginal.

São comuns, em Marçal Aquino, assim como em Rubem Fonseca - um mestre da narrativa policial - os tipos, os personagens marginais: a prostituta, o traficante, o bandido, o amante, a amante, aqueles que estão à margem da sociedade ou de uma situação, etc. Sua narração é objetiva e parte da aparência para a essência. Do equilíbrio ao desequilíbrio. Do verossímil ao real ou do literário ao real.

Este livro O Amor e outros objetos pontiagudos é um livro que contém dez contos e um poema. É seu terceiro livro de contos. Os contos são, em geral, curtos e apresentam características que fazem lembrar a linguagem cinematográfica com descrições minuciosas de lugares e situações.

"Nossos Inimigos" é o último texto e o único poema dentro desse livro de contos. Já chama atenção por isso mesmo. Não é à toa que vem logo após o conto "O Cerco" que conta a história de dois homens - o narrador e Luz - em alguma parte do interior do Brasil, próxima a Bolívia. Esses homens estão há cinco dias dormindo num carro, espreitando. Mantém algo no porta-malas que não sabemos o que é. Na verdade, quem está cercado. "O cerco" é para quem? Para os protagonistas ou para o leitor?  Vejamos o que diz o narrador, ao final desse conto:

É justamente para não sermos apanhados que evitamos as rodovias e andamos por estradas de terra como aquela, aumentando bastante um percurso que poderíamos fazer em no máximo dois dias. E, sem notícias, desconhecemos os passos de nossos inimigos.
Esse é o antepenúltimo parágrafo do conto que termina com a expressão "nossos inimigos". Curiosamente, o último texto, o que será analisado também chama-se "Nossos Inimigos". Como o conto "O Cerco" termina sem um fecho surpreendente, ou seja, nada é revelado, ninguém é pego. Simplesmente, a vida segue. Os personagens seguem estrada. E nós ficamos cercados. Intrigados.

Beto Brant, cineasta, na orelha do livro O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, escreveu assim sobre o texto, "Nossos Inimigos": "O conto "Nossos inimigos", que, num truque de linguagem, arremata "O cerco", tem forma de poema." Pois bem, assim como Beto Brant, convencionemos o texto como um conto em forma de poema. Portanto, o conto, "Nossos Inimigos" está, intimamente, ligado ao conto anterior, "O Cerco", e ao analisarmos, devemos, pois, ter em mente a história do conto a que se refere.

Num tom pessimista, angustiante e, por que não dizer, "neurotizante", o autor coloca todos nós num estado de alerta geral, de vigília total. Ele nos convoca à meditação sobre "nossos inimigos".  Não sabemos quem são, mas sabemos que existem e estão em toda parte, prontos a nos cercar. O autor inicia e fecha o conto com essa idéia: "Nossos inimigos ainda vão acabar nos cercando." - "primeiro verso" - e "Eles ainda vão nos cercar" - "último verso".

É bem verdade que a forma, ou fôrma, desse conto é de poema, não só no que diz respeito a estrutura em versos, mas também pelo uso de repetições, anáforas: "Nossos inimigos", como o uso de figuras de linguagem: "... para nossos inimigos nos vigiarem/ cada passo, cada poro" ou "Nossos inimigos não dormem/no ponto." A variedade de verbos que indicam a ação de "nossos inimigos" - "espreitam", esperam", "querem", "vigiarem", "fazem", "vasculham" e "estão" - além da repetição de "espreitam" e "esperam" - contribui para o clima neurotizante, reforçando o agoniado ritmo e consolidando a sensação de cerco que o emissor que nos passar.

Como o conto antecedente, "O Cerco", não esclarece nada da trama, "Nossos Inimigos" surge para levantar uma reflexão dialógica com o conto anterior, na medida em que se utiliza dos mesmos motivos do conto anterior: o cerco, os inimigos, a espera, a espreita, o estado de alerta, o caos, a insegurança, a tensão, a neurose, a vida.

Não é à toa que encontramos em Marçal Aquino, escritor, pós-moderno, vestígios de pensamentos de Schopenhauer, filósofo alemão, que vê a dor como a maior virtude humana. Para Schopenhauer, "o ente que não conhece a piedade está fora da humanidade, e essa mesma palavra humanidade é muitas vezes tomada como sinônimo de piedade." A influência schopenhaureana fica notória, no conto, "Nossos Inimigos", no seguinte trecho:  "Um de nossos inimigos conhecia a piedade,/e agora está aqui, conosco." Também no conceito de arte é evidente a influência schopenhaureana em Marçal Aquino. Segundo Schopenhauer, "o verdadeiro sentido da tragédia é essa observação profunda, que as faltas expiadas pelo herói não são as deles, mas as faltas hereditárias, isto é, o próprio crime de existir."

Dessa forma, percebemos que o conto-poema de Marçal Aquino é uma tentativa de diálogo com o conto anterior, "O Cerco" e trabalha a neurose humana, o cerco em que nos encontramos, hoje, constantemente, nas grandes cidades seja pela violência, seja pela calmaria. Encontramo-nos cercados por olhos apurados, torturadores, olhos que espreitam e esperam. Olhos schopenhaureanos. Olhos das dores do mundo. Olhos de verdadeira ressaca.
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