Cintia Barreto
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O Erotismo em Branco e Preto na Narrativa de Márcia Denser (página 02)

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Erotismo em Preto

Eu sou a chaga e o punhal!
Eu sou o rosto e a bofetada!
A roda e a carne lacerada,
Carrasco e vítima afinal,1
"Branca de Neve (Um Conto de Fadas Para Adultos)"

Márcia Denser surge na literatura brasileira na década de 70, mas é na década de 80 que conquista seu espaço como escritora. Fica um tempo sumida e ressurge como fênix em pleno século XXI na  antologia Os cem melhores contos brasileiros do século organizada por Ítalo Moriconi. Segundo Nelly Novaes:

Márcia Denser pertence à época da contracultura; da vulgaridade como arma de agressão; da sátira demolidora de mitos; do erotismo transformado em produto-de-consumo; da droga transformada em indústria rendosa; da violência da linguagem e de outras violências ... Embora nem todos esses elementos façam parte do mundo de ficção de Márcia, é nessa pauta que seus textos devem ser lidos e sua linguagem precisa ser entendida. Isto é, como elemento integrante da luta que a mulher vem travando para se libertar dos preconceitos seculares (ou milenares?) que a vêm subjugando.2
Toda Prosa (2001) reúne contos e novelas da autora numa mistura de textos antigos e novos. O texto, aqui, selecionado é o segundo conto do livro e narra uma história conhecida de todos por um ângulo diferente, acentuando o vermelho, concedendo voz àqueles que pouco se expressavam, retirando máscaras e colocando outras. O conto de Márcia "Branca de Neve (um conto de fadas para adultos)" apropria-se do conto de fadas "Branca de Neve" e, a partir da intertextualidade, desconstrói um mito infantil carregando-o de ludicidade e erotismo. Sobre a autora e sua linguagem Nelly completa:

Pertencente à geração "pós-pílula", Márcia Denser assume com impiedade e lucidez raivosa as conquistas e mutilações que a mutação-em-processo no mundo vem provocando nos que, nela, estão empenhando a vida. A força de sua escrita inclui-se entre nossos raros livros eróticos "femininos" que, optando abertamente pela "linguagem do corpo", não descambam para o sensacionalismo fácil, para o escândalo estéril ou para o cinismo.3
O erotismo, aqui, centra-se no desejo masculino. A história, em Márcia Denser, surge sob o ponto de vista do homem, ou melhor, dos sete pequenos homens: os anões. Ela problematiza as relações de gênero e não se intimida pelas relações preestabelecidas por uma sociedade preconceituosa, machista, burguesa e cristã.

Pelo contrário, a autora parece gostar de virar pelo avesso os "bons costumes", instaurar o caos em algo que se encontra, aparentemente, equilibrado. É isso que a autora faz, ao reescrever um dos contos de fadas mais conhecidos: desconstrói o que parece estar bem situado social e culturalmente. Ela quer fixar suas raízes e mostrar a relatividade das coisas. Como quem dispõe de uma câmera e de um ângulo privilegiado e inédito, tece sua narrativa da forma que lhe convém.

O conto, de Márcia, aproxima-se da versão de Walt Disney sobre a narrativa infantil, pois nela os anões são individualizados, possuem características próprias e recebem o nome de acordo com elas, facilitando o entendimento das crianças sobre quem é quem na trama. A história de Márcia inicia com os anões constatando que têm um problema, na verdade, um "belo" problema: "... uma bela encrenca, puxa vida - suspirou Soneca." (2001: 25).

A autora não economiza palavras para representar a corja de homens diminutos que "cercam" a "pobre" moça de conto infantil. De súbito, deve lembrar-se de que, embora o título seja homônimo da história para crianças, o subtítulo adverte que é "um conto de fadas para adultos" e, é de conhecimento geral, que, quando se rotula algo como "para adultos", entende-se que pode ocorrer: sexo, nudez, obscenidades, palavrões, entre outros elementos proibidos para crianças.

Verdade é que, mesmo tendo sido Márcia Denser considerada pela crítica como autora pornográfica assim como Hilda Hilst, nesse conto não há nenhuma cena de sexo explícito, tudo é velado, sugerido. O que surge na narrativa de Márcia, nesse momento, é o erotismo. A linguagem da autora é sensual, jocosa, ambígua e aberta a interpretações mais picantes. Por meio da linguagem, Márcia constrói o"ethos" (caráter) de seus personagens que ganham, em sua narrativa, destaque. São eles os principais. De coadjuvantes a personagens-núcleo. Não são bons, pelo contrário são brigões, desbocados, trapaceiros e querem fazer sexo com a Branca de Neve. Eles são anti-heróis. "Salvam" a mocinha das garras da madrasta má em troca dos prazeres da carne.

Diferentemente das outras versões, os anões hesitam em ficar com a moça. A partir do discurso de Zangado, Márcia exibe as relações capitalistas de interesses, já que aos anões cabe a exploração de uma mina de diamantes, além de denunciar uma sociedade cristã vil na qual a igreja representa também os interesses financeiros de uma minoria aristocrata. Ficar com a moça significa arriscar perder o "direito adquirido" ao longo de trinta anos de trabalho duro naquele lugar. Eles não possuem a escritura da mina, ela não lhes pertence oficialmente Diz, ainda, Zangado:

Para eles o que conta é o papel, aquele que não temos, a escritura, o canhenho com o sinete, o lacre, o rabisco, e não trabalho, honra, orgulho, dignidade, nem uma vida inteira! Nada além duma mísera folha garatujada por um rábula para comprar-lhes o silêncio e livrar-nos das masmorras e do nome de ladrões e por que não de estupradores? Aí tem um banquete completo: ao povo do reino o purificador espetáculo de sete enforcamentos e a eles, o ricos senhores, nossa mina como penhor pelos danos materiais e morais - ou seriam estéticos? -  que lhes causamos, sem falar nos padres que talvez também reclamem  parte deles e a da santa madre igreja, afinal anões e bruxas sempre alimentaram as fogueiras da Santa Inquisição, daquele deus esfarrapado, daquele Cristo patético e sanguinário, daquele judeu que em nome de Deus clama por vingança, ouro, prata e diamantes ao pé do Seu altar e o que mais? A palavrinha piedade ainda faz algum sentido para vocês?4 Apesar do longo discurso de Zangado, eles decidem ficar com a moça, pois Mestre acredita que a moça será dada como morta, logo ninguém irá procurá-la. Assim que decidem ficar com ela, inicia-se um dialogismo com o conto de fadas dos irmãos Grimm. E diz o narrador: "Os anões piscavam dando-se cotoveladas, puxa, se estavam excitados, provocavam Zangado: - Vamos, sua ratazana velha, para que serve uma mulher dentro de casa?" (2001: 30). Num segundo momento, Feliz diz: "ela lava, passa, cozinha, tira teias de aranha, prega botões". (2001: 31).

Nesse instante, começam as frases ambíguas entre os anões sugerindo um desejo sexual pela moça. Eles dizem: "... p-precisamos d-dar uma m-mãozinha p-pra ela - Dengoso corou como um semáforo. - Claro, quantas for preciso, até Branca pegar o jeito - Soneca piscou para Dunga que piscou para Atchim." (2001: 31). Instaura-se uma discussão em torno de como tratar a moça e mestre fala para os anões irem conquistar Branca de Neve já que se julgam "irresistíveis".

A narrativa de Márcia desconstrói a imagem de Branca de Neve e dos próprios anões, na medida em que explicita o erotismo velado no conto "original". O erotismo de Márcia chega à beira do obsceno, do vulgar. Todos tentam "ficar" com a Branca de Neve, entrando no quarto no qual se encontrava e a descrição de suas reações são de "espantar neném". Ela deixa um com olho roxo, outro com um galo na testa, morde, dá uma overdose de rapé em Atchim, Soneca é exposto ao ridículo, pois sai de seu quarto, dormindo, numa cesta vestido de bebê. Há uma referência ao livro Lolita de Nabokov: "Talvez ela prefira um tipo grisalho e experiente, não leram Lolita? - estufando o peito e encolhendo a barriga, Mestre empurrou a porta." (2001: 33). Também não foi feliz, pois sai "indignadíssimo, esfregando o traseiro".

A relação de poder tratada por Alberoni é aqui encontrada, pois, o único que consegue "ficar", num primeiro momento, com a moça é Dunga que oferece um diamante: "Ironicamente o tempo ensinou que a chave do paraíso também serve no inferno. As disputas por pedras cada vez maiores e mais puras se acirraram ao longo daqueles meses amargos." (2001: 35).

Segue, assim, uma disputa para "ter" a moça. Todos agora conseguem e essa assemelha-se a uma prostituta, já que satisfaz os desejos carnais dos sete homenzinhos em troca de diamantes. Ela faz sexo pago, portanto, prostutui-se. Sobre o desejo por prostitutas Alberoni diz:

Ao dar-se, a mulher provoca nele uma forte emoção. Não é verdade que o sentimento dominante seja o orgulho por ter conseguido seduzi-la ou por ter conseguido humilhá-la, pagando-a. Claro, esses sentimentos existem, mas não têm a importância da emoção erótica da qual estou falando. Com o tempo, na verdade, não se lembrará mais da corte. Não se lembrará mais do pagamento. Nem da estória. Lembrar-se-á somente do ato erótico.5
Cegos de paixão, de uma paixão "adormecida por anos de isolamento", os homens "trabalhavam indiferentes ao cansaço, à fome, ao sono: uma hora perdida podia representar incontáveis noites solitárias". (2001: 35). A voz que narra a história descreve, minuciosamente, o estado de "pathos6" dos anões, como se pode ver:

Por ela sacrificaram tudo: honra, orgulho, dignidade, esse patrimônio do coração humano cujo valor está na inviolabilidade, em restar quietamente na treva.
Eles já não se reconheciam.
A antiga camaradagem desaparecera. Avaramente ocultavam o produto do trabalho de cada dia a ser depositado aos pés de Branca logo à noite.
Sequer se lembravam que haviam sido felizes.7
É importante estar atento à descrição emotiva feita pelo narrador, pois confirmará o ciúme, sentimento que Alberoni explica suas implicações:

No ciúme tememos que a pessoa amada prefira o outro a nós. Não devemos apenas defender o nosso objeto de amor da força do negativo, porque ele próprio é cúmplice desta força, é ele próprio esta força no momento em que escolhe o outro e não nos quer, subtrai-se ao nosso amor. No ciúme, portanto, a agressividade se dirige também contra a pessoa amada. Por isso dizemos que sentimos ciúmes de quem amamos.8
Nos instantes finais da narrativa de Márcia Denser, Branca de Neve queixa-se por vestir "trapos grosseiro" e de que nada adianta ter diamantes se encontra-se nesse estado. Arranca o corpete com um puxão, pisotea-o  e atira-se na cama soluçando. Os anões tentam consolá-la, dizendo que ela "linda de qualquer jeito", mas só atraem mais fúria à moça que num rompante diz: "-Vocês! Se não fossem vocês eu não estaria assim! Por que se agarram à mim? Por que não me deixam partir?" (2001: 36).

Após esse momento, Branca de Neve tem uma revelação: "- Alguém ... não sei quem ... está vindo - recomeçou num sussurro apagado - Vem num cavalo. Ouço-o há duas noites galopando ao redor das árvores." (2001: 36).  Os anões se entreolharam e perguntam se não foi um sonho e a moça responde que não sabe sonhar.

O ciúme como foi descrito por Alberoni toma conta dos amantes e esses, num medo frêmito de perder o objeto de desejo saem em busca da solução para o problema. O fim é trágico e alude ao retorno dos anões à casa - feita por Walt Disney. No desenho, os anões retornam e vêem Branca de Neve "morta". No conto de Márcia, os anões colhem oito maçãs, envenenam uma para dar à moça - chave que serve tanto ao paraíso quanto ao inferno - como foi dito pelo narrador.

Assim, o conto de Márcia está carregado de elementos existentes nas versões de Branca de Neve, mas, neste, há algo de erótico, político e trágico. É, realmente, um conto de fadas para adultos. Agora, a "paz" reina na casa daqueles pequenos homens que tiveram suas vidas reviradas pelo símbolo do erotismo encarnada numa pele alva, de bochechas vermelhas e cabelos negros.

Conclusão

Com este trabalho, foi possível vasculhar o que há por trás do conto infantil. Pode-se perceber por que Branca de Neve encontra-se na lista das histórias de maior teor erótico de todos os tempos.

Tanto na versão dos irmãos Grimm quanto na versão de Márcia Denser lê-se a história de Branca de Neve como uma narrativa que suporta uma sensualidade natural capaz de encantar sete homens, sem contar o príncipe que está predestinado a salvá-la. Na primeira história ele consegue, mas na segunda não é tão feliz.

Branca de Neve é uma mulher que carrega em si, a inércia, a fantasia, o sexo e o luto. Ela simboliza o paraíso e o inferno. Dessa forma, Márcia Denser lê o conto de fadas. Dessa forma, pode-se ler Márcia Denser como uma escritora que como uma restauradora moderna retira as tintas à procura do íntimo, da origem da obra. Escava e encontra um erotismo que eleva à quinta potência a fim de fazer o interlocutor enxergar o invisível.

Por tudo que foi dito, entende-se que foi possível aguçar a curiosidade de todos a respeito do erotismo em branco e preto na narrativa de Márcia Denser e do dialogismo entre a escritora e o imaginário infantil proposto pelos irmãos Grimm e por Walt Disney.

Notas

1 BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret, 2002, p. 92.

2 COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993, p. 252.

3 COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993, p. 250.

4 DENSER, Márcia. Toda Prosa. São Paulo: Nova Alexandria, 2001, p. 28 - 29.

5 ALBERONI, Francesco.  O Erotismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 89.

6 A autora procura produzir emoção no interlocutor pela ação discursiva. Ela "torna emocionantes as coisas indiferentes". "Em análise do discurso, esta noção é (de pathos), às vezes, utilizada para assinalar as discursivizações que funcionam sobre efeitos emocionais com fins estratégicos". In: Dicionário de análise do discurso de Charaudeau e Maigueneau, p. 372.

7 DENSER, Márcia. Toda Prosa. São Paulo: Nova Alexandria, 2001, p. 35.

8 ALBERONI, Francesco.  O Erotismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 154.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBERONI, Francesco.  O Erotismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret, 2002.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

CHARAUDEAU, Patrick. O ato de linguagem como encenação. In: Langage et discours: éléments de semiolinguistique. Paris, Hachette, 1983.

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993.

______. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.

Contos de fadas: edição comentada e ilustrada / edição, introdução e notas Maria Tratar; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

DENSER, Márcia. Toda Prosa. São Paulo: Nova Alexandria, 2001.

PAZ, Noemi. Mitos e Ritos de iniciação nos contos de fadas. São Paulo: Cultrix, 1989.

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