Cintia Barreto
Cintia Barreto
O professor estuda | para aprender | que não deveria saber tanto.

A Relação Professor-Aluno

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Este trabalho tem por objetivo refletir sobre o papel do professor do século XXI a partir dos questionamentos: a) a relação professor-aluno; b) a diferença entre educação, ensino, instrução e treinamento a partir dos meios de multimídia e c) a informática na educação e o microcosmos da sala de aula.

É importante ressaltar que as reflexões apresentadas têm como base a leitura de uma série de textos selecionados nas aulas de Sociologia da Educação.

Assim, pode-se ter uma visão intertextual de algumas das reflexões aqui propostas, dialogando sempre com os autores lidos e exercendo a crítica, a fim de que o trabalho seja uma ponte entre a teoria e a prática educacional do século XXI.

É real a afirmação da professora Malca Dvoira Beider quando diz que poucos se lembraram de alguém que exerce uma função social de alta complexidade, lutando pela sobrevivência da cultura e do saber, em condições nem sempre favoráveis - o professor.

Com essa afirmação, Malca inicia seu artigo sobre a triste constatação de que o Dia do Professor passou em branco. Por que a sociedade esqueceu-se desse dia? Por que não valorizarmos aqueles que nos incentivaram à prática da leitura, ao interesse pelos números, à curiosidade pelo corpo humano, à investigação pelos fatos, ao encantamento pelas línguas e à descoberta dos espaços habitados e inabitados? Por quê?

Não poderíamos deixar de lado a atual situação da educação no Brasil e da relação professor-aluno, que reflete o que ocorre fora do ambiente escolar. Quantos professores sentiram na pele a discriminação de alguns alunos em relação ao seu papel em sala de aula? Quantos se perguntaram - "o que estou fazendo aqui?" - e obtiveram como resposta sempre a mesma afirmação: "eu gosto de lecionar, adoro conhecer pessoas, fazer algo por elas, adoro vê-las descobrindo coisas a partir das indagações propostas por mim ou pelo mundo", e, por último, dizem: "não saberia fazer outra coisa na vida".

É fato que o professor, ao longo do tempo, foi perdendo prestígio e respeito perante a sociedade o que acabou afetando sua posição hoje na sala de aula. O que se vê agora como bem disse Paulo Freire é que as empresas estão se tornando cada vez mais escolas e as escolas, cada vez mais empresas. Dessa forma, o alunado, principalmente nas instituições privadas, vê no professor um funcionário pago por ele e acaba sentindo-se "patrão" direto dos mesmos. Atualmente, o aluno é quem manda, quem diz se gostou ou não de tal professor e funciona quase como um diretor paralelo, não escolhendo, mas eliminando alguns sujeitos da grade docente de determinadas escolas, sobretudo nas da rede particular de ensino.

Essa situação não deve continuar. É preciso resgatar a imagem do professor e valorizar o seu importante papel na escola e na sociedade. É preciso resgatar a magia da leitura, falada por Rubem Alves (1999) Foi D. Iva - não sei se ela ainda vive - quem me ensinou que ler pode ser delicioso como voar ou como patinar. Ela lia para nós. Não era para aprender nada. Não havia provas sobre livros lidos. Era pura alegria. Poliana, Heidi, Viagem ao céu, O saci. Ninguém faltava, ninguém piscava. A voz de D. Iva nos introduzia num mundo encantado. O tempo passava rápido demais. Era com tristeza que víamos a professora fechar o livro.

Por outro lado, há professores que, por medo, ignorância ou arrogância, não conseguem ter um bom relacionamento com os alunos e deixam de lado a aprendizagem afetiva, colocando em prática somente a pedagogia tradicional na qual o aluno é visto como uma folha em branco pronta para ser preenchida pelo digníssimo professor "sabichão". Nesse método, não há trocas. Não há críticas. Não há crescimento. Há platéia. Há ouvintes. Há fã-clube. Contudo, não é esse tipo de relacionamento, unilateral, que desejamos para os nossos jovens. Não é dessa forma que se ajuda alguém a contestar, a ter o direito a não concordar com as coisas, ou até de concordar, criticamente, com o assunto apresentado.

O professor, do século XXI, deve funcionar como um facilitador no acesso a informações. Deve funcionar como um bom amigo que auxilia o sujeito a conhecer o mundo e seus problemas, seus fatos, suas injustiças e suas solidariedades, de forma que o aluno possa caminhar com liberdade de expressão e, conseqüentemente, de ação. Em contrapartida, o aluno deve respeitar o espaço escolar e valorizar o professor, sabendo aproveitar a magia do momento, o encantamento do aprender-ensinar-aprender.

Portanto, o professor hoje é aquele que ensina o aluno a aprender e a ensinar a outrem o que aprendeu. Porém, não se trata aqui daquele ensinar passivo, mas do ensinar ativo no qual o aluno é sujeito da ação, e não sujeito-paciente. Em última instância, é preciso ficar evidente que o professor agora é o formador e como tal precisa ser autodidata, integrador, comunicador, questionador, criativo, colaborador, eficiente, flexível, gerador de conhecimento, difusor de informação e comprometido com as mudanças desta nova era.

REGO (2001) nos mostra que os postulados de Vygotsky parecem apontar para a necessidade de criação de uma escola bem diferente da que conhecemos. Uma escola em que as pessoas possam dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar saberes. Onde há espaço para transformações, para as diferenças, para o erro, para as contradições, para a colaboração mútua e para a criatividade. Uma escola em que os professores e alunos tenham autonomia, possam pensar, refletir sobre o seu próprio processo de construção de conhecimentos e ter acesso a novas informações. Uma escola em que o conhecimento já sistematizado não é tratado de forma dogmática e esvaziado de significado.

Assim deve ser a relação professor-aluno, o aluno precisa aprender a aprender e o professor precisa aprender a reaprender sempre.

Educação, Ensino, Instrução E Treinamento

DEMO (1994) diz que o aprender a aprender é fundamental, uma vez que a habilidade obtida em processos de mero ensino e de mera aprendizagem caracteriza-se pela cópia, pela imitação. Não se fazem "mestres", apenas aprendizes, executores de planos e projetos alheios, "fazedores" fidedignos. Disso resulta o "treinado", aquele trabalhador capaz de perfazer a tarefa como cópia perfeita no esquema do reflexo condicionado. Atualmente, muitas são as técnicas específicas de auxiliar o aprender a aprender.

Antes de qualquer coisa é importante definir o que é aprender. DEPRESBITERIS (1999) nos esclarece que para os comportamentalistas, aprender é modificar comportamentos. Numa outra perspectiva, aprender é resolver problemas, é apropriar-se de respostas. Pessoas que defendem essa concepção acreditam que a inteligência não é um dom nem um acúmulo de saberes. Ela se constrói no decorrer de um longo processo. A inteligência é, portanto, o resultado de uma construção progressiva, mas não estritamente cumulativa. Ela produz respostas em diferentes níveis. O educador dispõe de dois meios para desenvolver o aprender: transmitida seja assimilada por aquele a quem ela se destina. A descoberta pela experiência permite uma solução original pela própria pessoa que aprende. Nesta perspectiva, aprender é agir na direção de construir respostas para problemas, suplantar os conflitos cognitivos em um ambiente estimulador, tendo direito ao erro, descobrir fatores invariáveis e variáveis e se apropriar de raciocínios. Para aqueles que defendem uma aprendizagem significativa, o agir é um interagir consigo mesmo e com outras pessoas.

Atentos à definição de uma aprendizagem significativa, podemos começar a pensar sobre a diferença entre educação, ensino, instrução e treinamento, a partir dos meios multimídias. É inegável que estamos vivendo uma nova era, a era tecnológica na qual o mundo encontra-se plugado e globalizado de tal forma que o profissional de hoje não deve ser mais o melhor da "turma", ou do bairro, ou da sua cidade, nem mesmo do seu país, mas sim o melhor do mundo. Da mesma forma, a educação não pode, simplesmente, ignorar os avanços dessa nova era tecnológica, deve sim acompanhar as mudanças e aproveitar os benefícios que essa nova realidade traz para si.

Quando se fala em educação, fala-se em educação, em casa, na escola, na rua e na igreja. A educação se dá de várias formas e em vários lugares e contextos. Ao falarmos que fulano não tem educação, pois entrou em sala de aula - após o início da mesma - sem pedir licença à professora, estamos nos referindo à educação dos pais, à educação de casa, à educação informal. Por outro lado, quando - ao procurar um emprego - exige-se do candidato o diploma de ensino médio, e este não o tem, diz-se que não tem a educação necessária, a educação formal. Não podemos esquecer que esses são apenas uns dos muitos exemplos que poderiam ter sido apresentados para distinguir educação formal da informal. Na verdade, dependendo do exemplo dado, elas poderiam mudar de papel. Desse modo, nota-se que há várias teorias em torno do que seja educação.

Para DURKHÜEIM (1972) a educação é uma ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social e tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança certo número de estados físicos, intelectuais e morais reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança particularmente se destina. Essa definição é deveras tendenciosa e manipuladora, pois não leva em consideração os conhecimentos reais do educando, mas sim sua capacidade de adaptação à sociedade vigente, sem qualquer questionamento crítico.

Alguns teóricos defendem a idéia de que a educação deve ser individualizada, uma vez que o homem seria o objeto central do processo educativo. Outros defendem a tese da educação comunitária, uma vez que o destino do homem é viver em sociedade. Contudo, há, ainda, os que acreditam na educação socializante pela qual o homem integra-se à comunidade de forma ativa e participativa, preservando assim tanto os seus interesses como os da comunidade em que vive. Assim, a educação hodierna tem que atender igualmente aos interesses do indivíduo e da comunidade.

Nessa concepção NÉRICI (1993) diz: educação é o processo que visa a revelar e a desenvolver as potencialidades do indivíduo em contato com a realidade, a fim de levá-lo a atuar na mesma de maneira consciente (com conhecimento), eficiente (com tecnologia) e responsável (eticamente) a fim de serem atendidas as necessidades e aspirações da criatura humana, de natureza pessoal, social e transcendental.

No que diz respeito à definição de ensino, esse é entendido como conseqüência da educação. Para NÉRICI (1993) ensino é o processo que visa a modificar o comportamento do indivíduo por intermédio da aprendizagem com o propósito de efetivar as intenções do conceito de educação, bem como habilitar cada um a orientar a sua própria aprendizagem, a ter iniciativa, a cultivar a confiança em si, a esforçar-se, a desenvolver a criatividade, a entrosar-se com seus semelhantes, a fim de poder participar na sociedade como pessoa consciente, eficiente e responsável.

Para o professor José A .Valente, da Unicamp, informação é o fato, é o dado que encontramos nas publicações, na Internet ou trocando informações. O conhecimento é a informação interpretada, relacionada e processada. Logo, podemos partir para a diferença entre ensino, instrução e treinamento.

Com o avanço tecnológico, o indivíduo encontra rapidamente informação, porém a informação só passará a ser conhecimento se esse for bem instruído, ou melhor, direcionado por um profissional da educação, para ajudá-lo a compreender que nem tudo que ele lê transformar-se-á em conhecimento, pois nem tudo que existe na rede é, primeiro de qualidade, e; segundo, de relevância educacional. O ensino confunde-se então com conhecimento e instrução; por esse prisma, confunde-se com a função do educador atual que é de facilitar a aprendizagem do educando. Por último, treinamento é algo que nos faz lembrar da teoria de condicionamento de Skinner na qual o educando é estimulado a aprender a partir da repetição de exercícios, seguida de recompensa. Também na rede podemos treinar e ser treinados, mas só poderemos nos instruir, ou nos educar se tivermos arreigados os conceitos de crítica e autonomia da educação, senão o que teremos é um enorme número de informações desconexas e, com certeza, não é esse o objetivo da educação.

Portanto, Gabriel Mario Rodrigues conclui muito bem seu ensaio quando diz: a tecnologia facilita a transmissão da informação, mas o papel do professor continua e continuará sendo fundamental para auxiliar o aluno a construir o conhecimento. Os que não entenderem essa nova realidade correm o risco de serem substituídos por uma máquina. O professor que trabalhar mais como um facilitador será insubstituível e inesquecível, como até hoje é, para qualquer de nós, a figura da primeira professora.

Conclusão

Este trabalho serviu para nós, educadores, refletirmos sobre o nosso papel na escola e na sociedade, bem como repensar também o papel do aluno no microcosmo da sala de aula.

Observamos que os dias atuais trazem inovações a cada minuto e que se ampliou o número de profissionais com diferentes funções na educação. Hoje temos o professor tradicional, aquele que professa; o educador, aquele que educa e o instrutor, aquele que instrui, geralmente, soa à tecnicismo esta nomenclatura, mas, no fundo é o que se tem na verdade; instrutores de informática, e não professores ou educadores de informática.

Portanto, os educadores, que somos, devemos utilizar todos os recursos que o século XXI nos proporciona sem esquecer nunca, é claro, da intenção do uso feito deles.

Assim, a educação deve ter sempre uma função humanitária e progressista e visar sempre à construção de um cidadão crítico, autônomo e seguro de seu espaço nesta sociedade, a fim de que possa reivindicar os seus direitos com a responsabilidade de seus deveres.

Referências Bibliográficas

ALVES, Rubem. Entre a ciência e a sapiência: o dilema da educação.

São Paulo: Loyola, 1999. p. 62-63.

ARANHA, Maria Lúcia de A . Filosofia da Educação. 2. capítulo. São Paulo: Moderna, 1989.

BEIDER, Malca Dvoira. Professor Invisível ou em extinção?. Notícias. Maio de 1997.

DEPRESBITERIS, Léa. Concepções Atuais de Educação Profissional. 2. ed. Série SENAI . Formação de Formadores. 1999.

NÉRICI, Imídio G. Didática do Ensino Superior. São Paulo: Ibrasa, 1993.

REGO, T. C. Vygotsky, uma perspectiva histórica - cultural da educação. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

RODRIGUES, Gabriel Mário. Novas Tecnologias e o papel do professor. Folha de São Paulo, 22.03.2000.
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