Publicado no Boletim Informativo do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM)
Faculdade de Letras da UFRJ
Rio de Janeiro
Abril de 2006
"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher." (Simone de Beauvoir)

Luiz Ruffato, escritor mineiro de Cataguases, encarou o desafio de organizar um livro de contos com 25 mulheres de vários tipos, formas, sons, papos e gostos. Com tanta diversidade, pergunta-se o que elas têm em comum, tirando o fato de fazerem literatura? Primeiramente, todas começaram a publicar a partir da década de 90.
Com
25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2004), lançado pela editora Record, Ruffato, ao observar a invisibilidade da escrita de autoria feminina nos meios editoriais e midiáticos, solidariza-se com as escritoras da geração internet e procura minimizar tal fenômeno, trazendo à luz o livro de contos. Ele percebe que a mulher escreve. Há muitas e boas autoras escrevendo pelo Brasil afora, mas poucas ganham a notoriedade devida.
É curioso observar que é um homem quem traz à baila essas mulheres. Na verdade, quando ele mostra um painel das escritoras, utiliza-se de críticas como Lúcia Miguel Pereira e Nelly Novaes Coelho ... mulheres. Hoje, se alguém quiser saber sobre aquelas que faziam literatura nos séculos passados, como Júlia Lopes de Almeida, deverá recorrer a outras que tiveram o trabalho e o cuidado de resgatar e preservar uma história que foi deixada de lado, durante anos, por muitos homens. Também é interessante notar que, ao final de seu prefácio, o organizador oferta o livro à Simone que tanto pode ser Simone de Beauvoir quanto pode ser sua esposa, homônima da filósofa.
Quando se fala em escritoras, a primeira reflexão que vem à mente é o rótulo: isso é "literatura feminina". Não se deve aqui buscar traços dessa referendada literatura, muitas vezes, vista como um subgênero ou literatura menor. Ela é, sobretudo, uma literatura escrita por mãos que, querendo ou não, são sequiosas por liberdade de expressão, com anos de gritos sufocados na garganta. Mães, filhos, família, amor, des-amor, encontram-se e desencontram-se nos textos da coletânea. É a chamada literatura intimista, psicológica que Clarice Lispector fez e Lya Luft faz tão bem. Por mais que se queira fugir de alguns estereótipos, fica difícil, para algumas mulheres, de forma geral, desvencilhar-se de anos de desejos reprimidos.
Nessa coletânea, há textos muito bons e outros nem tanto. O que vale, no momento, é o projeto que dá visibilidade a essas escritoras. O tempo se encarregará de apagar os maus tecidos e de fazer perpetuar os bons. Num universo que mistura escritoras novatas e algumas já conhecidas, tudo pode acontecer. Heloísa Seixas, Clarah Averbuck, Livia Garcia-Roza, Ivana Arruda Leite, Letícia Wierzchowski são algumas das vozes que podem ser ouvidas.

O livro traz uma grande revelação: Tatiana Salem Levy, que constrói uma história sobre o descentramento do sujeito-mãe com a morte de um filho e instaura a dúvida: é possível uma mãe viver sem seu filho? O tema é recorrente, mas a forma como é feita a narrativa inscreve Tatiana no rol das melhores escritoras do livro. Seu texto claustrofóbico sugere a dor e a angústia passadas por sua mãe de papel. Adriana Lisboa também marca sua presença com muita poesia e
flashes de vida, numa escrita experimental. Há ainda, em boa parte do livro, a inserção da música americana num ambiente familiar.
The Sonics, banda protopunk da década de 60, surge como epígrafe do texto de Clarah Averbuck e, num movimento cíclico, ao final, dialoga com a história de amor. Também está presente a linguagem saída de
blogs, abreviação de
web (internet) e
log (registro). Há outros textos mais elaborados como o de Guiomar de Grammont. É um verdadeiro
self-service no qual se tem o livre arbítrio de consumir o que se quiser.
Dessa forma, é válida a contribuição de Ruffato para a escrita de autoria feminina. Se todas ficarão e se transformarão em grandes nomes da literatura brasileira, só o tempo dirá. Agora, o que importa é ouvir as vozes que, deliciosamente, dizem, em coro: "Ei! Estamos aqui! Vai encarar?!
1".
1 Ruffato lançou em maio de 2005, na Bienal do Rio de Janeiro, o novo livro que organizou chamado
+30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira também pela Record.