"A pontuação e o entendimento do texto – O enunciado não se constrói com um amontoado de palavras e orações. Elas se organizam segundo princípios gerais de dependência e independência sintática e semântica, recobertos por unidades melódicas e rítmicas que sedimentam estes princípios. Proferidas as palavras e orações sem tais aspectos melódicos e rítmicos, o enunciado estaria prejudicado na sua função comunicativa. Os sinais de pontuação, que já vêm sendo empregados desde muito tempo, procuram garantir no texto escrito esta solidariedade sintática e semântica. Por isso, uma pontuação errônea produz efeitos tão desastrosos à comunicação quanto o desconhecimento dessa solidariedade a que nos referimos.
Várias situações incômodas já foram criadas pelo mau emprego dos sinais de pontuação. Notem-se as diferenças entre as seguintes ordens de comando:
Não podem atirar!
Não, podem atirar!"
Evanildo Bechara
Leia atentamente o texto abaixo:
Um homem rico, sentindo-se morrer, pediu papel e caneta e escreveu assim:
"Deixo os meus bens à minha irmã não ao meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres".
Não teve tempo de pontuar e morreu. A quem deixava ele a riqueza?
Eram quatro os concorrentes. Chegou o sobrinho e fez estas pontuações numa cópia do bilhete:
"Deixo os meus bens à minha irmã? Não. Ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres".
A irmã do morto chegou em seguida, com outra cópia do escrito, e pontuou deste modo:
"Deixo os meus bens à minha irmã. Não ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres".
Surgiu o alfaiate que, pedindo a cópia do original, fez estas pontuações:
"Deixo os meus bens à minha irmã? Não. Ao meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres".
O juiz estudava o caso, quando chegaram os pobres da cidade; e um deles, mais sabido, tomando outra cópia, pontuou-a assim:
"Deixo os meus bens à minha irmã? Não. Ao meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do alfaiate? Nada. Aos pobres".
(Autor desconhecido)
Como você pode observar, dependendo dos sinais de pontuação utilizados, o texto é capaz de admitir quatro interpretações diferentes. A leitura do texto mostra, portanto, o valor da pontuação. Para que nossa mensagem seja clara, correta e possa ser entendida por todos, tal qual a imaginamos, precisamos empregar, corretamente, os sinais de pontuação.
Os sinais de pontuação são sinais gráficos empregados na língua escrita para tentar reconstituir determinados recursos utilizados na língua falada. Estes sinais destinam-se a marcar pausa, melodia e entonação.
Podem ser classificados em dois grupos:
1) para marcar pausas:
a vírgula (
, ) / o ponto
(
. ) / o ponto –e- vírgula (
; ).
2) para marcar melodia e entonação:
os dois-pontos (
: ) / o ponto-de-interrogação (
? ) / o ponto-de-exclamação (
! ) / as reticências
(
... ) / as aspas (
" " ) / os parênteses (
( ) ) /os colchetes (
[ ] ) / o travessão (
- ).
Vírgula
A
vírgula é o sinal que indica uma pausa breve, sem marcar o fim do enunciado. É empregada para separar termos da
oração ou para separar orações de um
período.
De um modo geral, pode-se afirmar que:
1) Não se usa vírgula na
ordem direta (sujeito, verbos, complementos ou adjuntos) dos termos da frase.
Ex.: O aluno estudou a lição em casa.
2) Na
ordem inversa, normalmente se usa vírgula.
Ex.: Em casa, o aluno estudou a lição.
3) Na ordem direta, haverá vírgulas quando uma expressão de valor explicativo ou adverbial ficar intercalada, separando o sujeito do verbo ou este de seus complementos.
Ex.: Pedro, aluno do último período, leu o livro.
Principais situações do uso da vírgula:
Separar aposto |
Ana C. , poetisa da década de 80, deixou muita saudade.
A prova, da semana passada, foi fácil. |
Separar vocativo |
Rapaz, estude um pouco mais.
Meu Deus, olhe por nós! |
Separar orações coordenadas, exceto aquelas começadas por e. |
Paulo pesquisou bastante, mas não encontrou o que queria./ Paulo pesquisou bastante e encontrou o que queria.
Ele assistiu ao filme bastante comentado por todos, mas não gostou.
Ora participava, ora calava-se. |
Separar orações coordenadas assindéticas (sem síndetos = conjunções). |
Gritava, gesticulava, dançava, tudo para chamar a atenção dos colegas.
"Vim, vi, venci". |
Separar orações começadas por "e": a) quando essas têm sujeitos diferentes.
b) quando o "e" não tem valor explicativo.
c) quando o "e" surge repetido (polissíndeto). |
Paulo pesquisou, e Caio escreveu o livro. (sujeitos diferentes)
Os EUA exportam milho, e a Suíça relógio. (sujeitos diferentes)
Estudou o ano inteiro, e não foi aprovado. (e = mas)
Estudou o ano inteiro, e foi aprovado. (e = logo)
"Ele fez o céu, e a terra, e o mar, e tudo quanto há neles". (Pe. Antônio Vieira) |
Intercalar expressões explicativas e corretivas. |
Você, ou melhor, todos do curso estarão capacitados a redigir textos comerciais agora.
"O importante é arrecadar impostos, isto é, forçar o sonegador a pagar." ( Folha de São Paulo)
Agora, disseram eles, precisamos investir em nós. |
Separar orações subordinadas adverbiais deslocadas.
Obs.: a conjunção (conectivo) vindo depois da oração principal, a vírgula é facultativa. |
Quando você procurar emprego, terá mais um atributo no seu currículo.
Apesar de muito tempo sem estudar a língua portuguesa, consegui entender a matéria apresentada.
Divagou, quando estudou Literatura. OU Divagou quando estudou Literatura.
Estudou mais, porque havia sido reprovado no último concurso. OU Estudou mais porque havia sido reprovado no último concurso. |
Separar termos de mesmo valor usados numa coordenação assindética (sem conectivos). |
Ele era honesto, simpático, sincero, inteligente. |
Separar nomes de lugares (topônimos) na indicação de datas. |
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2004.
São Paulo, 5 de junho de 2003. |
Separar conjunções adversativas e conclusivas deslocadas. |
Um dia, porém, ele retornou à casa.
Saiu tarde; chegou, pois, atrasado. |
Separar orações subordinadas adjetivas explicativas. |
Roberto, que estuda aqui, superou nossas expectativas.
O homem, que é um ser racional, está aprendendo a viver melhor. |
Indicar a supressão de um verbo que já apareceu ou que está subentendido. |
João irá à discoteca; José, ao teatro. (irá)
Os alunos compareceram de uniforme; a diretoria, de jaleco. (compareceu)
Na sala, apenas quatro ou cinco pessoas. (havia ou estavam) |
Ponto e Vírgula
O
ponto e vírgula marca uma pausa intermediária entre o ponto e a vírgula.
Emprega-se o ponto-e-vírgula para separar:
1) para separar partes de um período, das quais um pelo menos esteja separado por vírgula.
Ex.: Várias foram as causas que me levaram à loucura; entre elas, está a não realização de meus sonhos.
Ex.: São questões difíceis; merecem, pois, toda a nossa atenção.
2) separar as várias partes distintas de um período, que se equilibram em valor e importância.
Ex.: "A razão suporta as desgraças; a coragem as combate; a paciência as vence".
Ex.: "Se deres um peixe a um homem, matarás sua fome de um dia; se o ensinares a pescar, matarás sua fome por toda a vida".
c) separar os diversos itens de enunciados enumerativos como decretos, leis, portarias, regulamentos etc.
Ex.:
Art. 3º — O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I — igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II — liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte
e o saber;
III — pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;
IV — respeito à liberdade e apreço à tolerância;
V — coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
VI — gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
VII — valorização do profissional da educação escolar;
VIII — gestão democrática do ensino público, na forma desta lei e da legislação dos
sistemas de ensino;
IX — garantia de padrão de qualidade;
X — valorização da experiência extra-escolar;
XI — vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.
Dois Pontos
1) Inicia uma enumeração, um esclarecimento, introduz um aposto ou oração apositiva.
Ex.: Dispomos de: boas salas, recursos tecnológicos, professores especializados, etc. (enumeração)
Ex.: Desejo uma coisa: que você seja muito feliz. (oração apositiva)
Ex.: Não foi a razão que motivou tal atitude: foi a nossa amizade. (esclarecimento)
2) Antes de uma citação:
Ex.: Disse Heráclito, o filósofo: "Nada existe em caráter permanente, exceto a mudança."
3) Antes de uma observação, exemplo e nota:
Ex.: Obs.:
Ex.: Ex.:
Ex.: Nota:
Aspas
1) Ocorre no começo e no fim de uma citação ou transcrição.
Ex.: Disse Oscar Wilde: "Críticos de verdade? Ah, seria uma maravilha que aparecessem! Estou sempre esperando que isto aconteça."
2) Para indicar estrangeirismos, neologismos (palavras novas), gírias e palavras que se queira dar especial relevo na frase.
Ex.: É preciso usar seu "
background" para interpretar os textos de uma forma geral.
Ex.: Tudo voltou ao "normal" depois da noite de ontem.
Obs.: quando já ocorrem aspas numa citação ou transcrição, usam-se aspas simples.
Ex.: "Era melhor que fosse 'clown'." (Érico Veríssimo)
3. Para reproduzir um erro gramatical.
Ex.: Foi a "Nilópis".
4) Para indicar nomes de poemas e de capítulos de livros.
Ex.: Gosto de ler "Motivo" de Cecília Meireles.
Ex.: Em "O Anjo", segundo capítulo de
A asa esquerda do anjo, livro de Lya Luft, encontramos a desconstrução do mito da infância feliz.