É no brincar , e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self).
(D. W. Winnicott)
Antes mesmo de adentrar o espaço escolar, a criança costuma ouvir e contar histórias, pois a narrativa oral, freqüentemente, participa de sua vida familiar. Com isso, ela operacionaliza sentimentos como medo, dor, angústia, tristeza e alegria. O contato com o livro aguça esse processo e possibilita o desvendamento do mundo real a partir de um universo ficcional, muitas vezes, cercado de fantasia.
A criança, ao entrar em contato com o livro, encontra um espaço repleto de possibilidades lúdicas. O livro infantil não é muito diferente do destinado ao adulto no que diz respeito à construção literária. Como literatura, está carregado de elementos plurissignificativos: palavras, sons, imagens.
O escritor criativo, brincando com as palavras,
por meio de jogos sonoros, ditos populares, trava-línguas, trocadilhos e adivinhas, possibilita que a criança se insira no mundo da escrita e da leitura de forma lúdica e prazerosa. As parlendas, parábolas e provérbios, bem como o universo folclórico e fantástico, são recorrentes em textos destinados ao público mirim. A intertextualidade é muito grande nessas narrativas e contribui, assim, para aumentar o repertório do leitor.
Quando se trata de texto destinado ao público infante, o escritor tanto na prosa quanto no verso abusa de sua criatividade ao explorar os recursos expressivos da linguagem. Isso porque sabe que seu leitor aceita o contrato lingüístico apresentado. Acostumado a brincadeiras e a ambientes que remetem a fantasias, o leitor mirim participa dos jogos de palavras e imagens sugeridos pelo escritor criativo.
Para lembrar um sucesso literário que brinca com as palavras, vale citar a produção de Ruth Rocha. Seu livro
Marcelo, marmelo, martelo (1976), desperta o leitor para a arbitrariedade da língua. A personagem principal, o menino Marcelo, representa o espírito curioso e questionador da criança que não aceita o mundo como ele se apresenta, mas antes procura saber o porquê das coisas: "- Papai, por que é que a chuva cai? / - Mamãe, por que é que o mar não derrama? / - Vovó, por que é que o cachorro tem quatro pernas?" (ROCHA: 1999: 08). Marcelo questiona também o nome das coisas, sugerindo, assim, novas possibilidades onomásticas para tudo a sua volta por meio de neologismos formados a partir de associações diretas entre significante e significado:
Logo de manhã, Marcelo começou a falar sua nova língua:
-- Mamãe, quer me passar o mexedor?
-- Mexedor? Que é isso?
-- Mexedorzinho, de mexer café.
-- Ah... colherzinha, você quer dizer.
-- Papai, me dá o suco de vaca?
-- Que é isso, menino?
-- Suco de vaca, ora! Que está no suco-de-vaqueira.
-- Isso é leite, Marcelo. Quem é que entende este menino?
(ROCHA: 1999: 14)
São encontrados na narrativa vários vocábulos inventados pelo menino: cadeira é "sentador", travesseiro é "cabeceiro", bom dia é "bom solário", boa noite é "bom lunário", cachorro é "latildo" é casa do cachorro é "moradeira". A autora brinca com o significado das palavras e permite à criança refletir sobre a semântica e a história da linguagem.
Nesse sentido, é importante ressalatar que a poesia é um gênero privilegiado.
José Paulo Paes afirma: "A poesia não é mais do que uma brincadeira com as palavras. Nessa brincadeira, cada palavra pode e deve significar mais de uma coisa ao mesmo tempo: isso é também isso ali. Toda poesia tem que ter uma surpresa ..." (PAES
in ABRAMOVICH: 1991: 67).
No livro
Poemas para Brincar (1990), o autor convida o leitor a embarcar na brincadeira com as palavras. O poema "Convite" evidencia a proposta do texto poético e expõe ao leitor criança (ou não) o lúdico fazer poético:
Poesia / é brincar com palavras / como se brinca / com bola,
papagaio, pião.
Só que / bola, papagaio, pião /de tanto brincar / se gastam.
As palavras não: / quanto mais se brinca / com elas / mais novas
ficam.
Como a água do rio / que é água sempre nova.
Como cada dia / que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
(PAES in COELHO: 2000: 252)
Essa brincadeira acorda a criança para algumas construções vocabulares sejam elas morfológicas, fonéticas, sintáticas ou semânticas. Brincando, o escritor criativo permite à criança construir e reconstruir significados. No texto "Diálogo ultra-rápido", do livro
Sapato furado (1994), Mario Quintana brinca com a polissemia da palavra "troca": "- Eu queria propor-lhe uma troca de idéias... / - Deus me livre!" (QUINTANA: 2006: 19). O poeta criativo desloca para o texto dialógico a surpresa de que fala José Paulo Paes e possibilta, a partir da fina ironia e privilegiando o sentido literal, que muitas crianças ainda têm, a reflexão sobre a plurissignificação vocabular. Assim, percebe-se que o significado de uma palavra varia de acordo com o contexto, o receptor, o emissor e tantos outros elementos que permitem compreender a real intenção de um discurso proferido.
O poema "Inho - Não!", de Tatiana Belinky, brinca com a carga semântica do diminutivo que possui diversos valores. Nesse poema, o sufixo "-inho" apresenta seu valor pejorativo. Mais do que isso, ele permite refletir sobre a constante infantilização atribuída ao universo da criança:
Andrezinho tem três anos / E já se acha bem grandão:
É por isso que não gosta /De diminutivo, e então
Não suporta que lhe digam / "Dê a mãozinha" - (em vez de mão),
Ou que mandem: "A boquinha / Abre e come, coração!"
"Inho", inha", "ito", "ita", / São para ele humilhação,
O diminutivo o irrita: / O Andrezim prefere um "ão"!
Chama "gala" a galinha, / Não aceita correção;
"Escrivana", a escrivaninha, / E o vizinho é "vizão";
Chama "coza" a cozinha, / O toucinho é "toução",
É "campana" a campainha -
E ele próprio é o "Dezão" ...
(BELINKY: 2003: 16)
Atualmente, é muito comum, na literatura infantil, narrativas contadas sob forma de versos. Esses textos apresentam inúmeros jogos verbais e brincadeiras gráficas. Nesse sentido, vale ressaltar a obra literária de Fátima Miguez. A autora possui diversos títulos com essas características. Para ilustrar sua produção, pode-se citar
Em boca fechada não entra mosca (1999).
Sobre sua relação com as palavras, Fátima Miguez comenta:
As palavras inauguravam brincadeiras, jogos de faz-de-conta, adivinhas, parlendas, trava-línguas, histórias acumulativas, imagens intuitivas. E cada nova palavra descoberta era um acontecimento de pura magia na leitura do ritmo que trazia, no conteúdo que crescia quando a menina repetia, repetia e virava mania, teimosia de criança.1
No livro
Em boca fechada não entra mosca, Fátima narra a trajetória do povo brasileiro, a partir da metáfora da boca como símbolo de libertação. Para tanto, inspira-se no quadro “A Negra’’, de Tarsila do Amaral, aludindo às influências africanas na História brasileira. A obra apresenta jogos verbais com rimas, trocadilhos e ditos populares. Contando a trajetória do negro ao longo da história, a escritora brinca com os provérbios ao mesmo tempo que denuncia ao público infante a agressão cultural, a forçosa passividade e o mutismo diante do espírito escravocrata:
O peixe morre pela BOCA. / Mas essa BOCA não calou seus desejos
E abracadabra foi se abrindo, / sua voz negra assumindo,
gritando por liberdade, / deixando as marcas de sua identidade...
Um dia foi pega com a BOCA na botija;
Não fez o que seu mestre mandou... / E, num bate- BOCA malcriado,
teve seu corpo malatratado, / sua BOCA amordaçada,
seus desejos adiados...
(MIGUEZ: 1999: 17)
Dessa forma, a autora, por meio da oralidade e do provérbio que dá nome ao livro, trava um diálogo em que fica evidente a fusão entre a história e a arte. Representa uma forma contemporânea de resgatar o material folclórico há muito presente na literatura destinada ao público mirim. Esse livro estimula o imaginário expressivo e criativo das crianças, promovendo ainda o contato com a arte popular da palavra.
Para observar a produção contemporânea, não se pode deixar de mencionar a intensa contribuição da escitora Georgina Martins. Em
O menino que brincava de ser (2000), a autora, a partir do próprio título, chama atenção para a palavra "ser" e seus sentidos.
Segundo Silveira Bueno, "Ser" significa:
Ter um atributo ou um modo de existir; ficar; pertencer; ter natureza de; causar; produzir; consistir; ser formado; ser digno. (Verbo irregular. Pres. Ind.: sou, és, é, somos, sois, são ... (...). s. m. Aquele ou aquilo que é; ente, existência, realidade: -es: tudo o que existe; tudo o que foi criado.
(BUENO: 2000: 710)
A história contada por Georgina promove a exploração da linguagem a partir do sintagma "brincava de ser". Isso porque essa expressão se repete na narrativa, reforçando a construção da linguagem e suas várias possibilidades semânticas: "Dudu gostava muito de brincar de ser, brincava todos os dias na escola." (MARTINS: 2000: 04). Em outro momento, o protagonista comenta sobre as personagens que "gostavam de ser", diz: "- Gosto de um monte: quando eu vejo o desenho do Robin Hood, eu brinco de ser ele; quando vejo o da Bela Adormecida, eu brinco de ser a bruxa, eu gosto muito de ser bruxa..." (MARTINS: 2000: 10).
Ao mesmo tempo em que a palavra "ser" surge com a conotação de categorias de personagens infantis, essa sugere a própria natureza humana, ou seja, "tudo o que existe". Isso porque a história contada pela autora permite refletir sobre a construção de gêneros, imposta pela sociedade patriarcal que define papéis para os homens e mulheres. Assim, o texto de Georgina aborda a pluralidade e possibilita uma discussão crítica a respeito da discriminação sobre as várias formas de ser, de existir no mundo.
No fim da narrativa, o menino que um dia queria ser menina percebe que não precisa mudar o sexo para ser, estar no mundo, e após uma apresentação teatral, revela:
Vó, acho que eu quero continuar sendo eu. Não quero mais virar menina pra sempre.
A vó também olhou bem fundo nos seus olhos e, por alguns instantes, um ficou olhando fundo nos seus olhos e, por alguns instantes, um ficou olhando no olho do outro... Até que Dudu deu um grito:
- Vó, já sei, eu quero ser ator de teatro!
(MARTINS: 2000: 76)
Por fim, percebe-se que o escritor criativo brinca com as palavras, seja no texto em prosa ou em verso. Essa brincadeira permite a experiência lúdica no que tange a questão da reflexão sobre a linguagem e a própria construção do texto literário. Lendo obras que explorem o psiquismo infantil, a criança ficará cada vez mais curiosa em descobrir outros textos e, com certeza, terá mais prazer em ler o mundo que a cerca.
Notas
1 Texto extraído do site da autora:
www.fatimamiguez.pro.br/palavraEscritora.htm
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABRAMOVICH, Fanny.
Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1991.
BUENO, Silveira.
Minidiconário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2000.
BELINKY, Tatiana.
Um caldeirão de poemas. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2003.
COELHO, Nelly Novaes.
Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
MARTINS, Georgina.
O menino que brincava de ser. São Paulo: DCL, 2000.
MIGUEZ, Fátima. "Palavra: uma revelação da infância".
www.fatimamiguez.pro.br/palavraEscritora.htm. Acesso em: 19 out. 2006, 16h30min.
______.
Em boca fechada não entra mosca. São Paulo: DCL, 1999.
QUINTANA, Mario.
Sapato furado. São Paulo: Global, 2006.
ROCHA, Ruth.
Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias. São Paulo: Salamandra, 1999
.
WINNICOTT, D. W.
O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.