Quando nasci um anjo esbelto,
Desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
(...)
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
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Considerações Iniciais

A gaúcha Lya Luft é poetisa, contista, romancista, ensaísta e tradutora e conseguiu, como escritora, um lugar de destaque na literatura brasileira pós-moderna. Com seus romances intimistas, psicológicos, apresenta-nos a
anima da mulher que viveu sob a repressão familiar e se perdeu diante de tantas cobranças de posturas. Seus textos apresentam a vida e os conflitos sob o ponto de vista feminino.
As mulheres luftianas estão em busca de sua identidade, muitas vezes, perdida na infância. Por isso, não é rara a volta à meninice a fim de os personagens entenderem o estado presente. Infância e família são pontos importantes na desconstrução e na construção dos sujeitos fragmentados existentes em seu universo.
Este estudo está delimitado à observação da subjetividade da linguagem na referida obra. Para tanto, serão utilizados, como base, os pressupostos teóricos do semiolingüista Patrick Charaudeau, a partir de questões como noções de sujeitos e estratégias comunicativas.
Em seu livro
Histórias de bruxa boa (2004), sua obra mais recente e o primeiro direcionado a um público infantil, é possível observar, mais de perto, a presença autoral a partir da subjetividade da linguagem. Além disso, Lya minimiza, de alguma forma, a ideologia negativa criada ao redor da figura da bruxa. Ao fazer isso, ela, mais uma vez, desconstrói um mito: o mito da bruxa. Sabe-se que os contos infantis costumam separar as pessoas em duas categorias: boas e más.
É valido lembrar que essa dicotomia que divide o mundo em dois pólos, bem e mal, pode ser vista também em filmes modernos como
Guerra nas Estrelas, do final da década de 70, em que se aprende que "o lado negro da Força" é muito perigoso ou no livro de J. K. Rowling, recorde mundial em vendas, que mostra um jovem com a difícil missão de eliminar com "Você sabe quem". Nesses dois exemplos, podemos observar que os "heróis", o jovem fazendeiro, Luke Skywalker e o pré-adolescente, filho de feiticeiros, Harry Potter, são rapazes, aparentemente, comuns e têm a importante missão de salvar o mundo das forças do mal. Ainda para ilustrar,
Senhor dos Anéis escrito pelo lingüista inglês Tolkien mantém como "herói" o simpático hobbit Frodo que, nada mais nada menos, precisa levar o anel a um lugar seguro para destruí-lo longe do alcance de Sauron, o vilão.
Nesse sentido, evidencia-se a identificação do leitor, pessoa comum, com os "heróis", também comuns diante da difícil e grande aventura de se descobrirem capazes de salvar o mundo. Também os contos de fadas primam pela identificação do leitor com os "heróis". Sobre esse aspecto confirma Bettelheim: "O conto de fadas, em contraste (
com os mitos), torna claro que fala de cada homem, pessoas muito parecidas conosco" (BETTELHEIM, 1980:51).
Se a literatura, de uma forma geral, passando pelo cinema consagrou pessoas frágeis, comuns como sendo as que vão salvaguardar a paz no planeta, por que não transformar uma avó, pós-moderna, é bem verdade, numa bruxa boa, daquelas que fazem magias tanto para afastar o mal quanto para harmonizar o lar e os familiares?
É válido lembrar, neste momento, que, como afirma Bruno Bettelheim "Através de imagens simples e diretas a estória de fadas ajuda a criança a ordenar seus sentimentos complexos e ambivalentes" (BETTELHEIM, 1980:92) e "enquanto ouve o conto de fadas, a criança forma idéias sobre o modo de ordenar o caos que é a sua vida interna" (BETTELHEIM, 1980:92).
É importante ressaltar que
Histórias de bruxa boa é um livro feito a seis mãos e divide-se em cinco histórias. Cada história traz uma aventura que mostra neta e avó como epicentros da narrativa. Essas, às vezes, são espectadoras; outras, fazem parte da trama. Do processo de criação literária participam, além da autora, sua filha Susana Luft, com criativas ilustrações, e sua neta, Isabela, com suas fantasias. Tem-se, então, um livro da, sobre e para toda a família. Esta se reúne aqui para celebrar a vida e a convivência em grupo, apresentando o lado bom da família. Se antes, em seus romances, Lya apresenta situações familiares problemáticas, agora, o que se tem é um núcleo feliz no qual a harmonia impera.
Com esse livro, a autora explora o "realismo mágico" definido por Nelly Novaes Coelho como uma das tendências da literatura infantil contemporânea:
Obras em que as fronteiras entre realidade e imaginário se diluem, fundindo-se as diferentes áreas para dar lugar a uma terceira realidade, em que as possibilidades de vivências são infinitas e imprevisíveis. Situações centradas no cotidiano comum, em que irrompe algo "estranho", que é visto ou vivido com a maior naturalidade pelas personagens. (COELHO, 2000:158)
Para elucidar, será utilizada uma entrevista que a autora concedeu à editora Record, falando sobre a elaboração do livro infantil. Ao longo deste trabalho, trechos desse material servirão de base para reforçar a questão do dialogismo e da subjetividade da linguagem.
Por fim, ao se ler
Histórias de bruxa boa pode-se encontrar vestígios discursivos, marcas estilísticas de Lya Luft como a questão da desconstrução, do olhar feminino para as coisas e da importância da família na construção do sujeito.
Mundo Utópico e Mundo Distópico: Subjetividade Da Linguagem
Assim como Lya Luft a avó, representada no livro infantil, também escreve no computador e gosta de inventar histórias. Como as ilustrações foram feitas pela filha da autora, pessoa que a conhece além da literatura, algumas marcas são deixadas como pistas da subjetividade autoral não só no discurso como também nas imagens pictóricas. Tanto no plano literário quanto no plano social, as ilustrações mostram uma avó com as mesmas características físicas da autora.
No lúdico jogo pueril entre mundo utópico e mundo distópico é encontrada, não só a figura da neta, Isabela, mas, entre outras, a própria Lya Luft transfigurada na avó Lilibeth, assim descrita: "... era muito engraçada, alta, grandona, sempre escrevendo no computador" (HBB, 2004:10). Igual a outras avós menos modernas, mas bem diferente da avó dos modelos patriarcais, como Frau Wolf de
A asa esquerda do anjo (1981), Lilibeth conta histórias para sua neta e a leva numa fantástica viagem ao mundo encantado (utópico) no qual tudo é possível.
Ao se analisar um texto como realização de um ato discursivo, deve-se levar em consideração a identidade dos sujeitos - comunicante, enunciador, destinatário e interpretante -, a intenção do emissor, os papéis sociais que são desempenhados pelos sujeitos envolvidos, o contrato comunicativo e as estratégias enunciativas utilizadas pelo locutor para atribuir coesão e coerência à sua enunciação.
Charaudeau (1983) considera o ato de linguagem como ato interacional em que é preciso observar os tipos de sujeito existentes no discurso. Ele propõe quatro tipos de sujeito: EU-comunicante (Euc), EU-enunciador (Eue), TU-destinatário (Tud) e TU-interpretante (Tui). Entende-se por EU-comunicante, o sujeito que está por trás do enunciado. O Eu-enunciador seria, então, uma máscara usada pelo Euc para ocultar-se. Isso parece ocorrer em
Histórias de bruxa boa na qual Lya Luft esconde-se sob a máscara de Lilibeth e, nessa condição, sente-se à vontade para falar às crianças seu pensamento sobre a vida e a família.
Apesar de o narrador estar em terceira pessoa, o Euc pode tanto surgir sob sua voz quanto sob a voz da avó. Quanto à possível aproximação do Eu-comunicante (autora) com o Eu-enunciador (Lilibeth), é a própria autora quem estabelece o vínculo entre as duas:
Essa avó Lilibeth é a que eu sou: usa computador, voa de vassoura sobre o telhado em certas noites, é divertida, misteriosa, às vezes chata, é humana, enfim, moderna sem ser modernosa, mas muito avó: maternal, adora sua família, suas crianças, curte sua casa e conhece alguns segredos da vida. (LUFT: 2004)
A história de Lya Luft não se passa numa terra encantada tampouco numa realidade paralela, mas, aparentemente, numa metrópole contemporânea. Na primeira ilustração, pode-se ver um espaço que sugere ser um escritório no qual a avó Lilibeth se encontra sentada diante de um computador. No mesmo ambiente, há, além de Tatinha no chão com um palhaço, uma bola, um pote com lápis coloridos e desenhos, uma estante com muitos livros.
A partir dessa primeira ilustração, convida-se o leitor cativo a observar as pistas que remetem ao universo luftiano. Nos romances da autora, é freqüente, no espaço da criança, a questão dos livros, da leitura como ponte possível a um mundo diferente daquele que se apresenta. As personagens de Lya são leitoras. Também o palhaço, figura marcante em
Reunião de família surge no primeiro momento. Numa aparência mais lúdica que grotesca o símbolo do imaginário infantil exibe-se em pose pueril e alegre.
Em contrapartida, o espaço familiar agora nada tem de opressor. Não há avó em moldes patriarcais muito menos conflitos existenciais. O que se dá, nessa narrativa, para crianças, é uma família feliz. Nesse sentido, na obra em questão, o espaço (topografia) e o tempo (cronografia) são os "mesmos" de textos anteriores, pois a autora, geralmente, alude a seu tempo, o tempo presente:
Não optei por nada, como já disse, eu simplesmente inventei histórias para Isabela, que colaborou com algumas de suas fantasias, e escrevi depois, nada mais. É tudo espontâneo, é literatura oral transposta para computador e impressa. Mas é a dúvida que faz a vida valer a pena: o mágico existe? O real é real mesmo? É o que nos dá a visão do transcendente e misterioso da vida. (LUFT: 2004)
O caráter autobiográfico não fica apenas no plano pessoal, mas também no que diz respeito às escolhas lexicais e simbólicas na elaboração textual. Nesse sentido, pode-se ver a figura da bruxa na narrativa não só como parte do imaginário infantil, mas também como elemento simbólico que sugere a luta mulher pelo seu espaço. Sobre a feiticeira como símbolo das manifestações feministas, Pierre Brunel diz:
A eclosão feminista dos anos 70 fez muito naturalmente da feiticeira seu estandarte. Quem melhor que a feiticeira para simbolizar um discurso, uma revolta, um corpo de mulher liberado das hordas e tiranias masculinas?
A vontade da mulher de escrever, falar e viver seu corpo na diferença dos sexos, as reivindicações sociais, os direitos políticos que ela exige, como também o modo algo irônico e desconfiado com que os homens olham essas revoltas, fazem bem parte do mundo da feitiçaria.
(...)
A imagem da feiticeira acha-se agora revalorizada e reencontra sua força matriarcal, seu passado de mulher total, seu presente de mulher indomável. Quer ela fascine e enfeitice o homem, quer seja causa de um medo castrador, o fato é que se transformou no estandarte das reivindicações femininas. (BRUNEL, 1998: 358)
Lya Luft escondida na máscara do Eu-enunciador aponta uma família desejada, utópica, feliz e denuncia a condição atual da mulher sob o signo da bruxa, da feiticeira, mostrando aonde a evolução feminina chegou, modificando a figura da avó. Ela agora pode escrever no computador, pode levar a neta de carro para escola, bem como levá-la para passear, sozinha, sem a figura masculina a ocupar o papel central nessas ações.Também pode, é claro, vez ou outra, ficar na cadeira de balanço a contar-lhe histórias e colocá-la para dormir quando necessário. A avó luftiana é moderna e carinhosa, dedicada e divertida, independente e solidária.
Quando se fala aqui em EUe, pode-se e deve-se procurar o que está por trás de sua máscara. Por trás do discurso da avó Lilibeth encontrar-se-á o discurso de Lya Luft. Por trás do discurso do narrador encontrar-se-á também o discurso da autora.
É preciso considerar dois aspectos discursivos a fim de melhor observar os implícitos e a subjetividade da linguagem na obra: o
ethos e a cenografia. O
ethos é um termo emprestado da retórica aristotélica que "designa a imagem que o locutor constrói em seu discurso para exercer uma influência sobre seu alocutário." (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2004:220). Ele indica o caráter do enunciador, a imagem que o sujeito que fala faz de si mesmo.Para Maingueneau, o ethos é "a personalidade do enunciador". A noção de
ethos está ligada também à idéia que o locutor faz "do modo como seus alocutários o percebem". O
ethos, assim, simula o que o Eu-enunciador é, ou melhor, ele mostra o que o Eue quer parecer ser diante de seu Tu-destinatário.
Associada ao
ethos está a cenografia, ou a "cena de encenação". Ela refere-se à "situação de comunicação". Designa um espaço instituído, é o próprio espaço de enunciação. A cenografia é parte integrante do ato de fala. Ela é instituída pelo próprio discurso.
A imagem que Lilibeth constrói de si mesma, seu caráter, está intimamente ligada à cenografia do texto. Nos primeiros momentos da narrativa, a avó pode ser encontrada em seu escritório em frente ao computador. Daí depreende-se o
ethos da personagem. Ela simboliza uma nova mulher, conseqüentemente, representa uma nova categoria de avó. Essa mais se aproxima da
grandmother, a "grande mãe", nomenclatura inglesa para avó. Desse modo, ela representa a matriarca.
Assim é construído o caráter de Lilibeth. Ela assume o papel de "grande mãe", pois é ela quem surge na maior parte do tempo com a neta, é ela quem "educa". Sob a roupagem da bruxa, Lilibeth pode, com autoridade, ensinar, educar a neta, sua ajudante de feiticeira. Os ensinamentos são de bruxa para aprendiz de bruxa e não de avó para neta apenas. Essa visão da super mulher ou da mulher maravilha também passa pelo discurso do papel da mulher contemporânea que, apesar de conquistar novos espaços, sente-se, aqui e ali, presa a antigos papéis impostos por uma sociedade patriarcal.
O narrador assim descreve Lilibeth:
... aquela avó era mesmo muito diferente e divertida. Não cozinhava nem lavava nem ia ao parque com os netos. Estava sempre no computador, escrevendo bastante, e ia para a academia fazer ginástica.
A Vovó tinha muitas amigas e amigos, mas morava sozinha porque seu marido, o Vovô de Tatinha havia morrido fazia muitos anos. Tatinha só conhecia de um retrato junto do computador de Lilibeth. (HBB, 2004: 29)
A verossimilhança atribui credibilidade a quem fala, tornando seu discurso legítimo e aceitável para quem o compartilha. Dentro de um ambiente marcado pelo fantástico-maravilhoso no qual uma avó tem como objetos utilitários um computador e uma vassoura que voa, este do mundo utópico e aquele do mundo distópico, tudo pode acontecer e a verossimilhança surge a fim de fazer valer as duas realidades discursivas.
O duplo assume um papel importante no texto. Tudo é duplo: Lilibeth é avó e bruxa, há duas bruxas más, Tatinha é neta e ajudante de bruxa, esta ganhará duas irmãs gêmeas e o mundo em que vive também se divide em bem e mal. O duplo surge, na obra, como elemento simbólico que sugere a dualidade: fantasia e realidade.
Assim, o mundo utópico e o mundo distópico encontram-se na obra da mesma forma que autora e personagem se confundem, vez ou outra, na narrativa, também a realidade e a fantasia ocorrem.
Notas
1"Com licença poética" de Adélia Prado
in Os cem melhores poemas do século XX organizado por Ítalo Moriconi, p. 247.