Cintia Barreto
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Quisera poder perpetuar | o sorriso de um menino...

Histórias de Bruxa Boa... (página 02)

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Valores Morais e Intertextualidade: Construindo e Desconstruindo Histórias

O ethos apresentado pelo narrador da avó aproxima o Eu-comunicante do Eu-enunciador tamanhas as afinidades entre Lilibeth e Lya Luft. Esse jogo entre realidade e fantasia, em vez de diminuir o valor literário da obra, acrescenta, a meu ver, um poder mágico, intertextual, dialógico e polissêmico.

A partir de "Era uma vez" a autora estabelece a comunicação com os contos de fadas. "Era uma vez uma menina que se chamava... bom, o nome de verdade não importa. Nós vamos usar seu nome encantado, que era Tatinha" (HBB, 2004: 10). Nesse início, já é possível observar o jogo que vai se estabelecer na trama de Lya: o jogo do real e do fantástico. Ao dizer que o "nome de verdade" não importa, depreende-se que a personagem tem um nome real, mas que o que importa é o nome-fantasia: encantado.

É curioso observar que o pai e a mãe de Tatinha não recebem nomes, mas as empregadas da casa sim. Na terceira história, que narra o desejo da menina em ter irmãos e a concretização desse, as pessoas que trabalham na casa, todas mulheres, são nomeadas:

Tatinha estava com quase quatro anos e sentia falta de ter um irmão ou irmã. Na escola, brincava com seus amigos, e em casa havia sempre empregadas, tia Nana e Joaninha, que brincavam com ela quando tinham tempo. E havia tia Linda, muito alegre e divertida, que preparava a comida. Tia Linda estava sempre de bom humor e dava umas risadas que alegravam a casa inteira. (HBB, 2004:42)
Sobre esse aspecto, do livro, a própria autora diz:

O valor da família, o respeito pela criança, o convívio divertido entre crianças e adultos, o carinho e respeito pelos empregados ou funcionários, também domésticos, enfim, a alegria de viver, tudo isso espero que apareça. (LUFT: 2004)
Como se ouve dizer "Jo no creo en las brujas, pero que las hai, las hai...". As bruxas fazem parte do imaginário infantil e contrapondo-se às fadas, contribuem na formação do caráter da criança.

É certo que os contos de fadas costumam dividir os personagens em bons e maus. De forma que, desde pequenos, somos acostumados a identificar bruxas como fazendo parte do lado mal e fadas do lado do bem. Fala-se em "fada madrinha", quando se quer atribuir a alguém o título de pessoa benfeitora. Nunca se ouviu falar em "bruxa madrinha" por exemplo. Lya Luft, neste momento, opta pelo mistério e pela capacidade de sedução e de ação das bruxas para enfeitiçar-nos.

Sheldon Cashdan ratifica a idéia da bruxa como ser negativo:

O encontro da criança com a bruxa traz à baila o traço negativo que a bruxa personifica. Embora todas as bruxas sejam más, a natureza exata dessa maldade varia de história para a história. (CASHDAN, 2000:52)
Faz parte do universo relativo à bruxa, entre outras, a questão do medo: "- Bruxa de verdade não existe! E sua avó nem é tão feia, nem tem cara assim de bruxa. A gente não tem medo dela. Ela às vezes traz você para a escola de carro, e bruxa voa montada em vassoura!!!" (HBB, 2004:13). Diante dessas argumentações dos meninos da turma, Tatinha explica "- Mas ela é bruxa boa! (...) - Bruxa boa é diferente!" (HBB, 2004:13).

A fim de construir o ethos da bruxa, algumas marcas, desse universo, aparecem no texto como a vassoura, as poções mágicas, realizadas com elementos surreais, o poder de resolver problemas com a magia, afastando o mal ou protegendo os entes queridos e a amizade com os animais, como se pode ver em:

-- Bom dia, dona Minhoca. Escute, a senhora podia me fazer um favor? Tenho até vergonha de pedir, mas eu tenho uma avó ...
-- Eu sei - respondeu a dona Minhoca, esticando a cabecinha. - Todo mundo conhece Lilibeth, a Bruxa Boa. O que ela está precisando desta vez?
Tatinha ficou espantada, então sua avó era famosa no reino dos bichos? (HBB, 2004:34)
O fato de a avó ser conhecida pela Minhoca, ou melhor, por todos, parece validá-la como bruxa. Assim, fica a neta entre o real e o imaginário.

Lya pôde ser vista mais nitidamente, nesta história. Aqui não falam seus medos, mas seus sonhos, não fala a morte, mas a vida, a família sorri em vez de chorar. A personagem principal é uma bruxa ... boa. Com isso, a autora joga-se neste universo fantástico e, vestida de Lilibeth, tece sua narrativa com os fios-vida, aproximando a realidade da fantasia até um momento em que fica difícil de estabelecer o limite entre elas. No entanto, "No final da estória o herói retorna à realidade - uma realidade feliz, mas destituída de mágica" (BETTELHEIM, 1980: 79). Também, no fim da narrativa, os sonhos de Tatinha podem gerar outras histórias e não mais sua vivência. Estabelece-se, como de costume, um corte entre a utopia e a distopia.

Sabe-se que a autora foi uma leitura de Monteiro Lobato, Andersen, dos irmãos Grimm entre outros. Essas leituras surgem sempre em seus romances. Aqui não é diferente são várias as referências aos contos infantis: Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, etc. A história da Pequena Sereia aparece sugerida no último capítulo quando avó e neta vão à praia. Ela fala sobre as Bruxas do Mar. No conto de Andersen, é a Bruxa do Mar quem providencia pernas para que aPequena Sereia possa ver seu príncipe. Pelo encanto, a bruxa fica com sua bela voz e, ao final, a Pequena vira espuma. Ainda na figura da Bruxa do Mar pode-se ver a alusão à figura mítica da medusa, pois essa, na história, possue cobras no lugar dos cabelos.

Essas escolhas referenciais revelam o universo fantástico apresentado nos romances da escritora. Os livros infantis com suas histórias,que mesclam o belo com o trágico, fascinam Lya e transpassam várias de suas narrativas. Vale, nesse momento, lembrar que o conto de Andersen "A rainha da neve" aparece em A asa esquerda do anjo, atravessando todo o texto e que, em Reunião de família (1982), a personagem-núcleo, Alice, tal qual a Alice de Lewis Carroll, encontra-se refletida no "espelho-vida" e consegue enxergar um outro lado da "realidade".

A respeito dos valores morais, eles atravessam o texto, mostrando que a família deve viver em harmonia e que a curiosidade da criança deve ser preenchida com mais curiosidade. À criança cabe descobrir, vivenciar e re-inventar o mundo que a cerca a fim de vivê-lo melhor.

No discurso luftiano, ainda surge a questão do conto de fada como instrumento para a transmissão de conceitos moralizantes. Marina Warner mostra esse aspecto do conto infantil:

A função pedagógica da história maravilhosa aprofunda a afinidade entre a categoria social que as mulheres ocupam e os contos de fadas. Estes possibilitam a troca de conhecimento entre a voz da experiência de uma pessoa mais velha e um público mais jovem, apresentam imagens de perigo e possibilidades que se encontram adiante, usam o terror para fixar limites para as escolhas e oferecem consolo aos injustiçados, ... (WARNER, 1999:47)
A partir das figuras das bruxas más, representadas no livro de forma irônica, Cara-de-Panela e Cara-de-Janela, é possível estabelecer um vínculo com as adversidades que devem ser superadas a fim de se obter o crescimento. Para as maldades feitas pelas bruxas, deve-se ter um castigo, pois é preciso vencer o mal, eliminando a figura malévola. Assim, Tatinha aprende, com sua avó, a acabar com as duas bruxas, acabando, dessa forma, com seus problemas.

A avó luftiana é uma superavó, pois soluciona todos os problemas de Tatinha e dos outros. É ela quem tem a idéia de fazer mais um quarto para acomodar a família que, com a chegada das gêmeas, irmãs de Tatinha, vai crescer. Cabe a ela também a tarefa de providenciar cabelo para as duas netinhas. Aliás, por conta desse episódio um dado moralizante emerge, pois Tatinha diz que acha cabelo comprido mais bonito e as irmãs têm o cabelo muito curtinho.

Sobre a questão da beleza dos cabelos compridos a avó diz:

-- Tatinha, tudo tem seu lado bonito e seu lado feio, seu lado bom e seu lado ruim. Não se pode dizer que só cabelo comprido é bom, ou que só olhos azuis são bonitos. Nem que o que é feio é sempre ruim, ou o bonito sempre bom. Lembra que já lhe falei isso? (HBB, 2004:68)
Por tudo, entende-se que Lya Luft apresenta, em seu livro infantil, lições moralizantes bem como alude a histórias infantis universais, apresentando, assim, suas "histórias de bruxa boa".

Considerações Finais

Longe de analisar todos os aspectos presentes na narrativa, com este trabalho, pretendeu-se vasculhar a mais recente obra, Histórias de bruxa boa, de Lya Luft, sob a ótica da semiolingüística e à luz da análise do discurso, levantando questões como o caráter do sujeito e de que forma a autora aparece no discurso.

Para isso, foram observados alguns pontos propostos por Patrick Charaudeau. Pôde-se notar alguns implícitos na narrativa infantil, assim como as noções de ethos e cenografia propostas por Aristóteles e revistas por Maingueneau.

Em Histórias de bruxa boa, o Eu-comunicante deixa marcas que permitem identificá-lo por baixo do discurso do Eu-enunciador. Observou-se, a partir desta análise, como o ponto de vista do autor prevalece, perpassa o tecido textual e possibilita assistir, mais de perto, à subjetividade da linguagem.

O que se quis aqui foi, dentro do que o tempo e o espaço permitem, destacar o caráter subjetivo da linguagem em que o Eu-comunicante sob a máscara do Eu-enunciador passa seus ideais, ou seja, seu Eu-social, nesse caso, também literário.

Por fim, espero que tenha conseguido passar um pouco das possibilidades de análise da obra. Também espero que, a partir desta comunicação, as pessoas que a ouviram (ou leram) fiquem desejosas de ler o livro em questão, e, que, depois, saiam vasculhando a obra vasta de Lya Luft à procura de mais signos, pois, com certeza, os que assim procederem encontrarão muito mais do que procuravam. "Mais isso pode dar uma outra história ..." (HBB, 2004:24).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

CASHDAN, Sheldon. Os sete pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

CHARAUDEAU, Patrick. O ato de linguagem como encenação. In: Langage et discours: éléments de semiolinguistique. Paris, Hachette, 1983.

CHARAUDEAU, Patrick & MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.

LUFT, Lya. Entrevista. Rio de Janeiro:Record, 2004. Disponível em http://www.editorarecord.com.br/entrevista.asp?entrevista=7. Acesso em 18 mar. 2005.

MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas do século XX/.Rio de Janeiro: objetiva, 2001.

WARNER, Marina. Da fera à loira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
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