
Na minha infância, querida, que os anos não trazem mais,
ganhava sempre um cascudo, um coquinho ou uma moca.
O nome pouco importa, contanto que fique lá trás.
Os castigos eram frequentes. Se eu perdesse uma boneca,
apanhava de chinelo, de cinto ou de vassoura pra mão da mãe não doer.
Depois ela pedia desculpa, me dava muitos beijinhos até eu me contorcer.
Nesta infância, querida, eu tinha aversão a uma tia.
Diziam que ela era doente, pirada, louca, demente.
Na boca, faltavam dentes. Sorriso e choro iguais.
Minha avó inventava histórias sem rainhas, reis ou princesas.
Falava só de fantasmas que rondavam as redondezas, as bananeiras e os laranjais.
Eu me cobria inteira de medo quando dormia nas Gerais.
Na puerícia-memória, me vejo sempre indo embora,
em busca de um novo lugar pra ficar uns poucos dias até minha mãe sarar.
Perdia provas, leituras, também perdia as chaturas daquele dia-a-dia escolar.
Quando eu voltava à rotina, fazia tudo apressada para me recuperar.
Naquela infância, querida, eu tinha tempo de sobra pra muita coisa aprontar,
mas ficou turva a lembrança e, do momento de criança, não quero mais recordar.