Artigo: A POESIA INFANTOJUVENIL BRASILEIRA ESCRITA POR MULHERES: DE LÁ PRA CÁ

A voz feminina, historicamente sufocada, encontrou, na poesia anterior ao século passado, dificuldade de reverberação. Basta recordarmos as cantigas de amigo, produzidas por vozes masculinas na representação dos desejos femininos. Se escrever poesia para um público adulto era incomum nessa época para uma mulher, no início do século XX, mulheres encontraram espaço, principalmente, na escola e nos lares, para divulgarem seus poemas num mundo marcadamente masculino.

A poesia produzida para crianças no Brasil surge nessa época com caráter pedagógico e aparece no espaço escolar com a obra Poesias Infantis (1904) de Olavo Bilac. Esses poemas versavam sobre a pátria, a família, o bom comportamento e os valores morais. A paulista e professora, Francisca Júlia, em 1912, com a publicação de Alma Infantil, reforça os ideais moralizantes do poeta parnasiano e instaura a poesia de autoria feminina.

Acerca desse livro de Francisca Júlia, Nelly Novaes Coelho afirma: “São poemas em colaboração com seu irmão, Júlio César da Silva, e modelares exemplos do pensamento e da arte literária tradicionais: espírito de obediência absoluta, paternalismo, fervor patriótico, religiosidade etc. Foram adotados nas escolas durante anos.” (2006: 31). Isso se comprova nas duas últimas estrofes do poema “O ninho do beija-flor” que abre o livro: “E foi-se, deixando o ninho,/ Sem de leve lhe tocar,/Naquelle mesmo logar/Onde o fez o passarinho./Assim procede o christão/Que dos seus actos se preza./E Edméa, a par da belleza,/Tem muito bom coração.” (JULIA; SILVA: 1912: 15)

Em 1943, Henriqueta Lisboa publica O Menino Poeta. Seus poemas lançam um olhar sobre a criança e seu dia-a-dia, diferente do olhar verticalizado em que o adulto fala como ela deve agir. Menino Poeta recebeu o “Prêmio Machado de Assis” da Academia Brasileira de Letras em 1984. Apesar de seus versos terem uma proposta aos moldes modernistas, com versos brancos e rimas livres, um certo tom conservador, com transmissão de valores morais da época, ainda apontam, aqui e ali, para uma rigidez pedagogizante da poesia destinada à criança: “O menino poeta/não sei onde está/procuro daqui/procuro de lá/tem olhos azuis/ou tem olhos negros?/Parece Jesus/ou índio guerreiro?/(...) /Quero ver de perto para me ensinar/as bonitas coisas/do céu e do mar.1

Marisa Lajolo e Regina Zilberman (2006) informam que: “É, assim, bastante lenta a independência da poesia infantil em relação à função pedagógica. Só paulatinamente ela abandona a perspectiva tradiconal que tematiza bichos, pasisagens, vultos familiares e patrióticos de um ponto de vista exemplar e educativo.” (p.148)

Para mudar este cenário em que a poesia para crianças era ainda mais um espaço de transmissão de valores de uma época do que um construir lúdico da linguagem, surgem os versos de Cecília Meireles. Vale ressaltar que a escritora carioca sempre nutriu duas paixões: a poesia e a Educação. Pedagoga por formação, desempanhou papel de destaque na Educação dos anos 30: “A Biblioteca Infantil do Distrito Federal foi um dos projetos mais ambiciosos da reforma anisiana e um espaço onde Cecília Meireles desenvolveu sua criatividade e seu empenho em favor da literatura infantil.” 2(PIMENTA, 2001:105). A escritora foi uma militante das reformas da Educação do amigo Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, culminando com a organização, em 1934, da biblioteca para crianças transformada, mais tarde, no Centro de Cultura Infantil.

Somente, em 1964, com a publicação de Ou isto ou aquilo a poeta destina uma obra poética apenas ao público infantil. Com este livro, é possível a experimentação com as letras, vogais e consoantes, levando os pequenos leitores ao gosto de um prazer estético e sonoro com a poesia. Com efeito, a poesia de Cecília Meireles brinca com as palavras e se refere ao cotidiano das crianças, seus desejos e aspirações. Por meio de assonâncias e aliterações, a poeta oferece a ampliação de um repertório poético que prima pela linguagem imagética e lúdica. No poema “Bolhas”, Cecília brinca com o fonema /lh/, com as vogais “a” e “o” e sugere diferentes imagens do fenômeno no cotidiano da criança e do adulto. Promove a sensibilização do olhar do leitor-criança para a simplicidade das coisas do mundo:

 

Olha a bolha d\'água

no galho!

Olha o orvalho!

 

Olha a bolha de vinho

na rolha!

Olha a bolha!

 

Olha a bolha na mão

que trabalha!

 

Olha a bolha de sabão

na ponta da palha:

brilha, espelha

e se espalha.

Olha a bolha!

 

Olha a bolha

que molha

a mão do menino:

 

a bolha da chuva da calha!

 

(MEIRELES, 2001:15)

 

 

Aberto o caminho para uma produção poética voltada para o prazer do jogo lúdico da linguagem, outras poetas surgiram inovando nos temas e formatos. Em 1980, a também carioca, Roseana Murray estreia com o livro de poesia infantil Fardo de Carinho. Desde então, escreveu poemas destinados a crianças e jovens, tendo ganhado alguns prêmios, entre eles, o Prêmio Academia Brasileira de Letras, em 2002, pelo livro Jardins na categoria de melhor livro infantil do ano. Em Artes e ofícios (2007), Roseana escreve um metapoema sobre sua própria ocupação:

 

O poeta vai tirando da vida

os seus poemas

como pássaros desobedientes

e amestrados.

 

A palavra é o seu castelo,

sua árvore encantada,

abracadabra construindo o universo.

 

(MURRAY, 2007:54)

 

Com mais de 40 livros publicados, alguns temas tornam-se recorrentes como o da construção poética. A poesia de Roseana é leve como brisa e profunda como os ensinamentos dos velhos griôs africanos que passam a sabedoria da vida de geração à geração, como se pode costatar em “Escrita” do livro Poesia Essencial:

com seus labirintos vazios

o que dói é a vida

o destino desarrumado as esquinas

 

um mistério atravessa

nossos olhos distraídos

como um barco que invisível

cruzasse as montanhas

 

o que dói é a vida

e sua indecifrável escrita.

 

(MURRAY, 2002:28)

 

Com Roseana Murray, a poesia para crianças e jovens está definitivamente enlaçada ao espaço da ludicidade, da imagem e da emoção. Os versos livres, libertos de imposições academicistas, estão prontos a galopar e a proferir palavras de encantamento que não estão a serviço de uma moral da época nem tampouco de um pedagogismo tradicionalista. A poesia de Roseana Murray “ensina” a viver, como se pode notar em “Passaporte”:

 

essa dor que sinto

não é poesia

não é literatura

é como uma casa

de cal e osso

é como um sujo

na parede

 

essa dor

é passaporte para a vida.

 

(MURRAY, 2002:56)

 

Diante deste breve panorama, percebemos que a produção poética de mulheres destinada ao público infantojuvenil foi se transformando. É preciso acrescentar que essas alterações ocorreram à medida que a sociedade foi avançando em conceitos e valores. Na verdade, a visão de infância e criança modificadas, o próprio Modernismo enquanto movimento de liberdade criadora, a aprovação de projetos de lei que determinaram a obrigatoriedade de textos literários nas escolas no ensino de língua portuguesa e a intensa produção literária feminina, tudo isso contribuiu para a solidificação de mulheres escrevendo cada vez mais e melhor para crianças e jovens. Desde a década de 60, o número de poemas de autoria feminina neste segmento vem aumentando. Stella Carr, Tatiana Belinky, Sônia Barros e Marina Colasanti são algumas das vozes poéticas que também podem ser lidas de lá pra cá.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.

______. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.

JÚLIA, Francisca; SILVA, Júlio da. Alma Infantil. São Paulo e Rio de Janeiro: Editora Magalhães, 1912. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/03357900#page/3/mode/1up. Acesso em 18 jul 2011.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: histórias & histórias.São Paulo: Ática, 2006.

LISBOA, Henriqueta. Varal de Poesias. Disponível em: http://www.caravanapoetica.com.br/varal_de_poesias/henriquetalisboa_infantojuvenil.pf. Acesso em 18 jul 2011.

MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. São Paulo: Nova Fronteira, 2002.

MURRAY, Roseana. Artes e ofícios. São Paulo: FTD, 2007.

______. Poesia essencial. Rio de Janeiro: Manati, 2002.

NEVES, Margarida de Souza; LÔBO, Yolanda Lima; MIGNOT, Ana Christina Venancio (Org.). Cecília Meireles: a poética da educação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Loyola, 2001.

 

 

por Cintia Barreto (NIELM)

 

1 “O Menino Poeta” in http://www.caravanapoetica.com.br/varal_de_poesias/henriquetalisboa_infantojuvenil.pf

2 PIMENTA, Jussara. “Leitura e encantamento: a Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco” in NEVES, Margarida de Souza; LÔBO, Yolanda Lima; MIGNOT, Ana Christina Venancio (Org.). Cecília Meireles: a poética da educação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Loyola, 2001, p. 105.

 

 

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Cintia Barreto - Doutora em Literatura Brasileira Cintia Barreto