Artigo: CONVERSA LITERÁRIA COM CLARICE LISPECTOR

Lendo a crônica da Clarice Lispector "Máquina Escrevendo" (29/05/1971) é como se estivéssemos as duas a conversar frente a frente, sentadas à beira da cama como duas amigas a trocar impressões sobre a Vida.

Incrível como Clarice consegue num único texto falar sobre vários assuntos, aparentemente, desconexos, mas que são, na verdade, partes de um mesmo todo semântico-discursivo.

Destaco aqui as partes com as quais mais me identifiquei.

A crônica inicia falando:

"Sinto que já cheguei quase à liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse, deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio. E cada um que olhasse o espaço em branco, o encheria com seus próprios desejos.
Vamos falar a verdade: isto aqui não é uma crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério. Preciso ter um ritual para o mistério? Acho que sim. Para me prender à matemática das coisas. No entanto, já estou de algum modo presa à terra: sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só. Antes havia uma diferença entre mim e escrever (ou não havia? não sei). Agora mais não. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo." (p. 157)

Depois discorre sobre bichos e sua falta de interesse por tartarugas: "Como compreender uma tartaruga? Como compreender Deus?
O ponto de partida deve ser: \'Não sei\'. O que é uma entrega total.
A máquina continua escrevendo. Por exemplo, ela vai escrever o seguinte: quem atinge um alto nível de abstração está em fronteira com a loucura. (...)

(...) Quanto ao português, era com o maior tédio que eu dava as regras de gramática. Depois felizmente, vim a esquecê-las. É preciso antes saber, depois esquecer. Só então se começa a respirar livremente." (p. 158)

Continuarei seguindo à procura deste "respirar livremente", como Clarice que, no início da década de 70, mesmo envolta ao Estruturalismo acadêmico que buscava (e ainda busca), muitas vezes e, talvez sem perceber, trazer para si as rédeas das categorizações como forma de justificar sua própria existência, quebrou as paredes impositivas dos modelos tradicionais de crônica e romance e apresentou novas formas de escrever, pensar e estruturar os gêneros literários, quase que ao mesmo tempo que a Semiolinguística passava a questionar os modelos clássicos.

Se o que Clarice escrevia no Jornal do Brasil eram crônicas ou relatos (textos confessionais) e se Lya Luft , em "Perdas e ganhos" escreveu um livro de ensaio ou de auto-ajuda, pouco importa, porque o que importa mesmo é o mistério e a liberdade de cada uma.

Por último, penso que o movimento de crítica e análise literária vai do texto literário para a teoria e nunca da teoria para o texto.

Hoje eu e Clarice tivemos uma boa conversa sobre isso.

Referência bibliográfica

LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

Cintia Barreto 

Rio, 09/04/2020 (madrugada)

#fiquemcasalendo

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Cintia Barreto - Doutora em Literatura Brasileira Cintia Barreto