Entrevista: Best Sellers Podem Abrir Caminho Para os Clássicos

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Conexão Professor

A mágica das palavras lhe foi apresentada por tia Glorinha, uma freira e professora de francês, em Minas Gerais. Daí a paixão por Graciliano Ramos foi inevitável. Hoje, Cintia Barreto procura encantar e ensinar alunos do Colégio Estadual André Maurois, além de professores do curso de pós-graduação sobre Literatura Infantil e Juvenil da Unigranrio, da qual é coordenadora. Mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ, ela compartilha conosco algumas dicas para os professores aproveitarem os “livros do momento” para atrair os estudantes para os clássicos. Afinal, ao ler com atenção é possível comparar o fantasioso pré-adolescente Harry Potter a Pedro Bala, personagem clássico de Jorge Amado, em Capitães de Areia. Confira!

Conexão Professor (CP) - Apesar de a leitura de clássicos ser obrigatória nas escolas, na prática os alunos torcem o nariz para essas obras e preferem Harry Potter e Crepúsculo. Como os professores podem pegar carona no gosto deles e trabalhar isso em sala de aula?

Cintia Barreto - Em primeiro lugar, é preciso não negar o contexto social e cultural em que se encontram os jovens contemporâneos. Vivendo num mundo marcado pela mídia, é difícil resistir aos apelos do marketing que cercam livros como Harry Potter e Crepúsculo. Por meio da televisão, da propaganda e do cinema, essas histórias são apresentadas num clima de mistério e fantasia. Diante de uma realidade insatisfatória, os jovens encontram no ambiente fantástico um lugar perfeito para fugir dos problemas que o cercam. Esses dois livros trazem uma estrutura já utilizada com sucesso por Monteiro Lobato em 1920: a mistura entre o mundo real e o mundo mágico.

O livro de J. K. Rowling traz um jovem com a difícil missão de eliminar "Você Sabe Quem". Podemos identificar que o "herói", o pré-adolescente Harry Potter, é uma pessoa aparentemente comum. Por causa de sua fragilidade, o leitor se identifica rapidamente com o protagonista. Nesse sentido, o professor pode “pegar carona” em Harry Potter para discutir como aparece nos clássicos a figura do "herói" como uma pessoa comum. Neste caso, sugiro a leitura de Capitães da Areia, de Jorge Amado.

Assim como Harry Potter, Pedro Bala é um excluído da sociedade e carrega os traços característicos do herói. Já Crepúsculo, de Stephenie Meyer, abre caminho para leituras que falam de amor, como as que podemos encontrar em clássicos estrangeiros e nacionais como Romeu e Julieta, de William Shakespeare, Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, e Iracema, de José de Alencar.

Portanto, para promover nos jovens o interesse pela leitura, um caminho é partir de suas preferências. Assim, será possível planejar práticas de leitura por prazer e não por obrigação.

CP - A internet é um caminho para despertar o gosto pela leitura?

Cintia Barreto - Com certeza, a internet é um caminho capaz de despertar o gosto pela leitura. Isso porque possibilita acesso a uma série de gêneros diferenciados. Navegando na web, os alunos podem ler jornais, revistas, artigos, resenhas e monografias. Isso só para citar textos não literários, ou seja, informativos. Os textos literários também ganham destaque na rede. Atualmente, são muitos os sites que trazem boa literatura. Para ilustrar, destaco o site Blocos Online. Com a internet, é possível desenvolver nos alunos a velocidade e a facilidade de leitura, como também a criticidade e a criatividade. Não se pode negar ainda que essa ferramenta promove a interatividade, elemento muito importante no processo de ensino-aprendizagem.

CP - Ler é...

Cintia Barreto - Ler é descobrir novos mundos, novas possibilidades de reorganização da realidade. A leitura gera o encontro com outros pensamentos, outras culturas. A leitura literária nos faz experimentar sentimentos já vividos ou inéditos. Concordo com Todorov quando diz que a literatura ajuda a viver.

CP - Você acha que os jovens leem mais hoje do que no passado?

Cintia Barreto - Os jovens dos grandes centros urbanos dispõem de mais canais de leitura hoje do que no passado. Como falei, eles leem muito na frente do computador. Suas leituras diárias nem sempre são as indicadas pela escola, mas, com certeza, leem muito mais. Não estou falando em qualidade de leitura, mas em acesso à leitura. Atualmente, na era da tecnologia e da imagem, o diálogo do texto literário com outras linguagens ganha a atenção de muitos jovens. Quando o livro termina, surge o filme que reforça a empatia com a obra. O movimento contrário também leva à leitura. Alguns leitores chegam aos livros após assistirem a uma sessão de teatro ou a uma exibição de filme.

CP - Um pouco sobre o seu perfil de leitora: Quem foi o seu leitor-guia, aquele que conduziu seus passos na aventura de ler? E qual obra foi mais marcante?

Cintia Barreto - Sem dúvida, se hoje sou uma leitora voraz, devo a uma tia-avó, tia Glorinha. Era freira e professora de Francês de uma universidade em Caratinga, Minas Gerais. Quando eu era pequena, sempre me dava livros de presente, lia e contava muitas histórias. Com ela, conheci os contos de fadas maravilhosos, as fábulas e as lendas. Na adolescência, continuou nos presenteando com livros e foi assim durante muito tempo. Dessa forma, eles começaram a participar da minha vida para sempre. É difícil dizer qual obra foi a mais marcante, pois foram tantas boas histórias ao longo desses anos. Para citar apenas uma: Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Essa obra mexe com minhas emoções ao narrar a trajetória de uma família de retirantes, seu silêncio e esperança. Recentemente, li Ave do Paraíso, de Georgina Martins, e me emocionei bastante com a poesia da narrativa e com o senso estético da autora ao trazer para os dias de hoje um romance que narra as memórias de uma menina e sua infância pobre e sofrida. O livro de Georgina dialoga com o de Graciliano, sendo possível aos professores a elaboração de diferentes práticas de leitura relacionando os dois textos.

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Cintia Barreto - Doutora em Literatura Brasileira Cintia Barreto